Por que continuo sofrendo mesmo depois de tanto tempo?

Por que continuo sofrendo mesmo depois de tanto tempo?

“Já faz tanto tempo. Por que isso ainda dói?”

O tempo costuma ser imaginado como aquilo que naturalmente diminui o sofrimento. Quando uma perda, uma separação ou uma experiência difícil continua doendo depois de meses ou anos, pode surgir a impressão de que existe alguma coisa errada em nós.

Mas o tempo, sozinho, não determina o ritmo de uma elaboração. Duas pessoas podem passar pela mesma situação e viver consequências muito diferentes. O que foi perdido, o lugar que aquela experiência ocupava e aquilo que ela representava na história de cada pessoa interferem na maneira como o sofrimento se transforma.

Uma perda também pode ser maior do que aquilo que aconteceu concretamente. Uma separação, por exemplo, pode envolver a perda de uma pessoa, mas também de projetos, expectativas, hábitos, uma determinada posição dentro de uma relação e até uma imagem de futuro.

É por isso que, algumas vezes, a pergunta “por que ainda sofro?” precisa ser acompanhada de outra: o que exatamente continua sendo perdido dentro de mim?

Na perspectiva psicanalítica, o sofrimento não é medido apenas pelo tempo transcorrido desde o acontecimento. Freud, ao escrever sobre o luto, mostrou que a perda exige um trabalho psíquico. A realidade pode registrar que algo terminou enquanto os vínculos afetivos continuam presentes.

Isso ajuda a compreender por que alguém pode saber que uma relação acabou e, ainda assim, continuar emocionalmente ligada àquilo que perdeu.

Também pode acontecer de o sofrimento mudar de forma. No início, pode haver tristeza intensa e muitas lembranças. Depois, a dor pode aparecer como saudade, raiva, culpa, vazio ou dificuldade de imaginar um futuro diferente.

Por isso, não é necessário que o sofrimento desapareça para que exista elaboração. O que pode mudar é a relação que temos com aquilo que aconteceu.

Às vezes, porém, o sofrimento parece não encontrar nenhuma transformação. A pessoa continua presa às mesmas perguntas, às mesmas cenas ou ao mesmo sentimento de que a vida ficou interrompida. Pode existir dificuldade de investir novamente em outras relações, atividades ou possibilidades.

Nessas situações, vale investigar o que mantém aquele sofrimento tão presente.

Pode haver uma perda que ainda não encontrou lugar na história. Pode haver algo que não pôde ser dito, compreendido ou simbolizado. Pode haver culpa, ressentimento, uma expectativa que continua esperando realização ou uma parte importante da própria identidade que ficou ligada àquilo que terminou.

Winnicott permite pensar também na importância da continuidade. Algumas experiências provocam uma ruptura tão significativa que não se trata apenas de aceitar que alguma coisa acabou, mas de descobrir como continuar existindo depois daquela mudança.

Isso não significa que toda dor prolongada tenha uma causa escondida ou que seja necessário encontrar uma explicação profunda para cada sofrimento. O sofrimento também pode permanecer porque determinadas circunstâncias continuam difíceis, porque novas perdas aconteceram ou porque a pessoa ainda está vivendo as consequências concretas do que ocorreu.

Por outro lado, quando o sofrimento persiste e começa a comprometer de maneira importante a rotina, o trabalho, os relacionamentos, o sono, o interesse pelas coisas ou a capacidade de cuidar de si, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo. Em alguns casos, uma experiência de perda pode coexistir com um episódio depressivo ou outro quadro que também precise ser considerado.

Talvez, então, a pergunta não precise ser apenas “por que ainda não consegui esquecer?”.

Pode ser mais interessante perguntar: “o que essa experiência ainda representa para mim hoje?”

A elaboração não apaga o passado. Ela pode permitir que aquilo que aconteceu encontre um lugar na história sem continuar ocupando todo o espaço do presente.

Fontes

Freud, Sigmund. Luto e melancolia.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.

Organização Mundial da Saúde. Depressão.


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