Por que estou cansada o tempo todo?

Por que estou cansada o tempo todo?

Sentir-se cansada o tempo todo pode ser uma experiência difícil de compreender. A pessoa dorme, descansa quando consegue, continua fazendo o que precisa ser feito e, ainda assim, parece não recuperar a energia.

O cansaço pode aparecer como falta de disposição, dificuldade para começar uma tarefa, necessidade de fazer tudo mais devagar ou sensação de que até coisas simples exigem um esforço maior. Em alguns casos, a pessoa continua trabalhando, cuidando da casa, dos filhos ou cumprindo seus compromissos, mas precisa fazer tudo isso como se estivesse gastando uma energia que já não tem.

A primeira questão é que um cansaço persistente não deve ser atribuído automaticamente à depressão ou a algum sofrimento emocional. Existem diversas condições médicas que podem provocar ou intensificar a sensação de fadiga, além de alterações no sono, efeitos de medicamentos e outras situações que precisam ser investigadas. Por isso, quando o cansaço é frequente, intenso ou não desaparece com o descanso, uma avaliação médica é importante para investigar possíveis causas físicas.

A depressão também pode produzir esse tipo de exaustão. A redução da energia e a sensação de cansaço estão entre as manifestações que podem acompanhar um episódio depressivo. O sono pode se alterar, tanto pela insônia quanto pelo excesso de sono, e o descanso nem sempre traz a sensação de recuperação.

Por isso, olhar para o cansaço exige certa delicadeza. É preciso considerar o corpo, as condições concretas em que a pessoa está vivendo e também aquilo que pode estar acontecendo em sua vida psíquica.

A questão ganha outra dimensão quando o cansaço aparece junto com mudanças na maneira de viver. A pessoa pode perceber que perdeu o interesse pelas coisas, que tem dificuldade de sentir prazer, que está mais recolhida ou que tudo parece exigir um esforço desproporcional.

Nesse caso, talvez não seja apenas o corpo que esteja cansado.

A psicanálise nos permite olhar também para a relação entre a energia psíquica e aquilo que dá sentido às experiências. Freud mostrou, em diferentes momentos de sua obra, que nossa vida psíquica envolve investimentos, desejos, conflitos e perdas que não são imediatamente visíveis para nós. Quando alguma coisa se transforma nesse campo, isso pode repercutir na maneira como a pessoa se relaciona com o mundo.

Isso não significa procurar uma causa escondida para cada sensação física. O cansaço não precisa ser traduzido imediatamente como algo que estaria sendo “expresso” pelo corpo. A escuta psicanalítica pode simplesmente abrir espaço para perguntar o que está acontecendo com aquela pessoa e com sua relação com aquilo que antes mobilizava seu interesse.

Às vezes, uma pessoa diz: “Eu sei que tenho coisas para fazer, mas parece que não consigo reunir forças para começar”. Em outra situação, pode dizer: “Eu faço tudo o que preciso, mas parece que estou vivendo no limite da minha energia”.

Essas experiências são diferentes.

Há pessoas que continuam realizando suas tarefas, mas já não encontram nelas a mesma disponibilidade interna. Outras começam a abandonar atividades, encontros e projetos porque qualquer movimento parece exigir demais. Em ambos os casos, pode surgir uma culpa intensa: “Se eu consigo fazer algumas coisas, por que estou tão cansada?”

A culpa pode tornar o cansaço ainda mais pesado. A pessoa passa a considerar o próprio limite uma falha e tenta exigir de si aquilo que, naquele momento, não consegue oferecer.

Winnicott ajuda a pensar sobre a diferença entre simplesmente funcionar e sentir-se realmente vivo naquilo que se faz. Uma pessoa pode se adaptar às exigências do ambiente e continuar desempenhando seus papéis, enquanto sua experiência subjetiva vai ficando cada vez mais distante do que está fazendo.

Talvez por isso algumas pessoas descrevam um cansaço que não desaparece simplesmente depois de uma noite de sono. Existe o esforço de continuar correspondendo, de cuidar, trabalhar, decidir, responder, estar disponível. Aos poucos, pode surgir a sensação de que não há espaço suficiente para simplesmente existir.

Perguntar “por que estou tão cansada?” pode então levar a outras perguntas: o que tem exigido tanto de mim? Há quanto tempo venho funcionando dessa maneira? O que deixou de me mobilizar? Estou cansada de alguma situação específica ou tenho me sentido cansada de quase tudo?

Essas perguntas não substituem a investigação médica nem uma avaliação psicológica quando necessária. Elas ajudam a compreender que o cansaço pode ter diferentes dimensões. Quando aparece associado a mudanças persistentes no humor, no sono, no interesse, no prazer ou na maneira de se relacionar com as coisas, também merece ser escutado do ponto de vista psíquico.

Às vezes, compreender o cansaço começa justamente por não escolher uma única explicação para ele. Investigar o corpo e, ao mesmo tempo, poder falar sobre aquilo que está acontecendo na própria vida pode abrir caminhos diferentes para compreender o que se passa.

Fontes

Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).

Ministério da Saúde. Depressão em adultos: Linha de Cuidado.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.


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