Por que sinto que preciso estar sempre fazendo alguma coisa?

Por que sinto que preciso estar sempre fazendo alguma coisa?

“Se eu parar, vou ficar pensando demais.”

“Eu deveria aproveitar esse tempo para resolver alguma coisa.”

“Não consigo simplesmente ficar sem fazer nada.”

A sensação de que é preciso estar sempre fazendo alguma coisa não acontece apenas dentro de cada pessoa. Vivemos em um ritmo que valoriza a velocidade, a disponibilidade e a produtividade. Há sempre uma mensagem para responder, uma tarefa para adiantar, alguma coisa para organizar, um compromisso esperando e a impressão de que poderíamos estar aproveitando melhor o tempo.

Até o descanso pode acabar sendo pensado como algo que precisa ser aproveitado. Caminhar precisa servir para fazer exercício, ler precisa produzir algum conhecimento, um tempo livre pode ser usado para colocar a casa em ordem. Quando nada está sendo feito, pode surgir a sensação de que estamos perdendo tempo.

Esse modo de viver não significa que exista algo errado com quem tem uma rotina intensa. Há períodos em que as responsabilidades realmente são muitas e não podem simplesmente ser deixadas de lado. A questão aparece quando a atividade continua mesmo depois que as exigências diminuíram, ou quando parar provoca inquietação, culpa ou a sensação de que deveríamos estar fazendo alguma coisa.

A supervalorização da produtividade pode contribuir para isso. Quando o valor de uma pessoa passa a ser associado ao quanto ela produz, resolve, entrega ou consegue administrar, ficar sem fazer nada pode parecer uma espécie de falha. O tempo precisa ter alguma utilidade, e a própria pessoa pode começar a se cobrar por aquilo que não realizou.

É possível terminar um dia cansado e, ainda assim, pensar que não fez o suficiente.

Nesse contexto, a necessidade de estar sempre em movimento pode parecer tão natural que deixa de ser questionada. A pessoa se acostuma a viver correndo, responde rapidamente, antecipa problemas, preenche os intervalos e segue adiante. Às vezes, só percebe o quanto esse ritmo a atravessa quando finalmente tem uma oportunidade de parar.

E então pode descobrir que não sabe muito bem o que fazer com o próprio tempo.

A psicanálise permite pensar essa experiência considerando tanto o mundo em que vivemos quanto a história particular de cada pessoa. Freud mostrou como a vida psíquica é atravessada por desejos, conflitos e exigências que nem sempre reconhecemos conscientemente. Uma exigência social pode encontrar, em cada um, uma forma própria de se transformar em cobrança.

Para algumas pessoas, ser aquela que resolve, organiza, ajuda ou mantém tudo funcionando também se tornou uma posição importante nas relações. Fazer pode trazer reconhecimento, segurança ou a sensação de ser necessário. Parar pode significar, ainda que temporariamente, deixar esse lugar.

Por isso, talvez seja interessante observar o que acontece quando não existe nenhuma tarefa urgente.

A pessoa sente culpa? Fica inquieta? Começa imediatamente a procurar alguma coisa para fazer? Tem a sensação de que deveria estar sendo produtiva? Ou percebe que, quando o movimento diminui, aparecem pensamentos e sentimentos que costumavam ficar escondidos pela atividade?

Não é preciso supor que toda ocupação seja uma fuga. Algumas pessoas simplesmente gostam de fazer coisas, têm muitos interesses ou encontram satisfação em uma rotina ativa. A questão está na possibilidade de também escolher o contrário.

Winnicott ajuda a pensar sobre essa diferença entre estar permanentemente respondendo às exigências do ambiente e poder existir sem precisar produzir alguma coisa o tempo inteiro. Quando fazer e corresponder ocupam quase todo o espaço, pode ficar difícil perceber o que se deseja quando ninguém está pedindo nada.

Talvez a pergunta seja: o que eu gostaria de fazer agora, se não precisasse ser útil para nada?

Para algumas pessoas, essa pergunta é surpreendentemente difícil.

Também pode haver uma diferença entre ter muitas coisas para fazer e sentir que precisa estar sempre fazendo alguma coisa. Na primeira situação, as circunstâncias podem estar realmente exigindo demais. Na segunda, mesmo quando a demanda diminui, a necessidade de continuar permanece.

É aí que a experiência individual encontra o contexto em que vivemos. Uma cultura que associa valor à produtividade pode reforçar uma exigência que já encontra espaço na história de uma pessoa. E quanto mais natural parece essa exigência, menos evidente fica que também seria possível viver de outra maneira.

Talvez diminuir o ritmo não seja simplesmente encontrar mais tempo livre. Pode significar descobrir como é estar nesse tempo sem transformá-lo imediatamente em mais uma tarefa.

O que acontece quando você não está resolvendo nada?

Quem você é quando não está cuidando, organizando, produzindo ou ajudando?

Você consegue desfrutar de alguma coisa que não precisa levar a nenhum resultado?

Essas perguntas podem abrir espaço para pensar sobre uma relação com o tempo que não esteja inteiramente organizada pela produtividade.

Fontes

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.


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