
“Se eu não fizer, ninguém vai fazer.”
Talvez essa frase não seja dita exatamente assim, mas pode estar presente na maneira como algumas pessoas vivem. Elas percebem o que precisa ser feito, antecipam o que alguém pode precisar, lembram do que foi esquecido e se sentem responsáveis por manter as coisas funcionando.
Mesmo quando outra pessoa poderia assumir uma tarefa, alguma coisa dentro delas diz que é melhor verificar, acompanhar ou resolver.
A responsabilidade vai, então, se ampliando. Não se trata apenas de fazer muitas coisas, mas de permanecer disponível o tempo inteiro.
A pessoa pode estar trabalhando e pensando na família. Pode estar descansando e lembrando de uma pendência. Pode estar conversando com alguém e, ao mesmo tempo, imaginando o que precisa ser organizado depois.
A atenção parece nunca poder se desligar completamente.
É nesse ponto que pode surgir uma pergunta importante: quando foi que eu passei a acreditar que tudo precisava passar por mim?
Às vezes, essa posição tem uma história. Uma criança pode ter aprendido a ser muito responsável, a perceber o ambiente, ajudar, não causar problemas ou cuidar para que as coisas funcionassem. Em outras situações, a própria realidade exigiu que ela assumisse responsabilidades antes do que gostaria.
O que um dia foi necessário pode continuar funcionando muito tempo depois.
A pessoa adulta pode continuar vivendo como se precisasse estar sempre atenta, como se relaxar significasse deixar alguma coisa desprotegida.
Então, mesmo quando alguém diz “deixa que eu faço”, pode ser difícil realmente deixar.
Existe uma diferença entre ser responsável por alguma coisa e sentir-se responsável por tudo.
Na primeira situação, existe um compromisso que tem começo, fim e limites. Na segunda, a responsabilidade parece não terminar nunca.
A psicanálise pode ajudar a pensar justamente essa diferença. O que significa, para aquela pessoa, depender de alguém? O que acontece quando outra pessoa faz alguma coisa de maneira diferente? É possível confiar que alguém vai cuidar de uma situação sem precisar acompanhar tudo?
E, talvez mais profundamente: o que ela imagina que aconteceria se deixasse de ocupar esse lugar?
Pode aparecer culpa, medo de decepcionar, receio de que alguma coisa dê errado. Pode existir também uma sensação de importância ligada ao fato de ser aquela pessoa que resolve, organiza e sustenta.
Winnicott ajuda a pensar a relação entre adaptação e espontaneidade. Quando alguém passa muito tempo respondendo às necessidades do ambiente, pode tornar-se extremamente adaptado ao que os outros esperam, mas ter dificuldade de perceber o que acontece quando não está respondendo a ninguém.
Isso nos leva novamente ao desejo.
Se estou constantemente percebendo o que os outros precisam, quando consigo perceber o que eu quero?
Se minha atenção está sempre voltada para o que pode dar errado, quanto espaço sobra para pensar no que gostaria de fazer?
Se preciso estar disponível para todos, quem aparece quando não há ninguém precisando de mim?
Essa última pergunta pode ser especialmente difícil.
Para algumas pessoas, sentir-se necessária tornou-se uma parte importante da própria identidade. Ser aquela que resolve, acolhe, organiza ou sustenta oferece uma posição conhecida. Abrir mão dela, ainda que parcialmente, pode produzir uma sensação de vazio.
Por isso, diminuir responsabilidades nem sempre significa simplesmente distribuir tarefas.
Pode ser necessário compreender o significado que essa responsabilidade adquiriu.
Talvez exista uma história em que depender dos outros nunca pareceu muito seguro. Talvez pedir ajuda tenha sido associado à fraqueza. Talvez cuidar tenha sido uma das principais formas encontradas para preservar vínculos. Talvez tenha sido mais fácil perceber as necessidades dos outros do que reconhecer as próprias.
São possibilidades que precisam ser compreendidas dentro da história de cada pessoa, e não transformadas em explicações prontas.
Também é preciso reconhecer que há situações em que realmente existem responsabilidades que não podem ser abandonadas. Cuidar de alguém, sustentar uma família, administrar uma casa ou atravessar uma situação difícil pode exigir muito.
A questão pode estar menos na quantidade de responsabilidades e mais na dificuldade de reconhecer onde termina aquilo que realmente depende de nós.
O que posso deixar que pertença ao outro?
O que acontece comigo quando alguém resolve alguma coisa sem a minha participação?
E quem sou eu quando não estou cuidando de ninguém?
Talvez parte da sobrecarga venha justamente da dificuldade de separar responsabilidade de controle. Não porque a pessoa acredite que pode controlar tudo, mas porque, internamente, pode ser difícil confiar que as coisas continuarão existindo e funcionando sem sua vigilância.
Quando tudo depende de mim, descansar pode parecer perigoso.
E, quando descansar parece perigoso, até o desejo pode ficar em segundo plano. Antes de perguntar o que eu quero, preciso verificar o que os outros precisam. Antes de pensar em mim, preciso garantir que tudo esteja em ordem.
Uma mente ocupada demais com a manutenção das coisas pode ter pouco espaço para descobrir o que faria simplesmente porque deseja.
Talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes quando alguém sente que tudo depende de si:
o que poderia começar a existir na minha vida se eu não precisasse estar sempre sustentando alguma coisa?
Fontes
Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
Ministério da Saúde. Informações sobre estresse e saúde.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
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