
“Eu sei que precisava descansar, mas quando paro fico me sentindo culpada.”
Essa experiência pode ser particularmente dolorosa quando a pessoa está deprimida. Existe o cansaço, a falta de energia e a dificuldade de começar até mesmo tarefas simples. Ao mesmo tempo, aparece uma cobrança interna que diz que ela deveria estar fazendo alguma coisa.
Assim, descansar deixa de ser descanso. Parar passa a ser vivido como fracasso.
Na depressão, a redução da energia, da iniciativa e do interesse pode tornar tarefas que antes eram corriqueiras muito mais difíceis. A pessoa pode querer fazer alguma coisa e, ainda assim, não conseguir reunir disposição para começar. Pode olhar para uma casa desorganizada, uma mensagem que precisa ser respondida ou um trabalho pendente e sentir que deveria conseguir resolver tudo, mas não encontra forças.
É nesse ponto que a culpa pode se tornar especialmente pesada.
A pessoa começa a interpretar aquilo que está vivendo como uma falha pessoal: “Sou preguiçosa”, “Estou deixando tudo para trás”, “Todo mundo consegue, menos eu”. O sofrimento passa então a ser acompanhado por uma avaliação constante de seu próprio desempenho.
Uma avaliação médica e psicológica pode ser importante quando essa dificuldade é persistente, principalmente quando vem acompanhada de tristeza, perda de prazer, cansaço, alterações do sono ou outras mudanças significativas. A falta de disposição pode estar relacionada à depressão, mas também pode ter outras causas e não deve ser interpretada automaticamente como falta de vontade.
Existe, porém, uma pergunta que a psicanálise pode acrescentar: por que não fazer alguma coisa precisa provocar tanta culpa?
Em muitas histórias, o valor da pessoa foi sendo associado àquilo que ela realiza. Ser responsável, útil, produtiva, disponível ou capaz de resolver problemas pode ter se tornado uma maneira importante de sentir que se tem valor. Quando a capacidade de produzir diminui, não é apenas uma tarefa que deixa de ser realizada. Pode surgir a sensação de que a própria pessoa está falhando.
Aqui é possível distinguir duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: a exigência e a culpa.
A exigência diz: “Eu deveria fazer isso.” Ela estabelece uma medida, uma obrigação, um ideal de como a pessoa acredita que deveria estar funcionando. Pode vir de expectativas próprias, das exigências do ambiente ou de uma história em que estar disponível, produzir e dar conta das coisas se tornou muito valorizado.
A culpa aparece quando a pessoa sente que falhou diante dessa medida. Já não se trata apenas de não ter feito alguma coisa. Surge a ideia de que há algo errado com ela por não ter conseguido fazer.
Na depressão, porém, essa culpa pode ganhar uma intensidade particular. A pessoa não apenas reconhece que deixou de cumprir uma tarefa. Pode sentir-se inadequada, inútil, incapaz ou responsável por tudo aquilo que não está conseguindo realizar. A crítica deixa de se dirigir ao que aconteceu e passa a atingir a própria pessoa.
Freud observou, ao falar da melancolia, uma forma de autorrecriminação que vai muito além do reconhecimento de uma falha concreta. Na melancolia descrita por ele, a crítica dirigida a si mesmo pode assumir uma dimensão desproporcional, atingindo o próprio valor do indivíduo. Isso não significa que toda culpa presente na depressão seja melancolia, mas ajuda a compreender por que, em alguns estados depressivos, a pessoa pode tornar-se tão severa consigo mesma.
Winnicott, por outro caminho, ajuda a pensar sobre a relação entre fazer e existir. Há uma dimensão da experiência que não está relacionada à produtividade, mas à possibilidade de estar consigo mesmo, brincar, descansar e existir sem precisar estar continuamente respondendo às exigências do ambiente.
Isso pode ser difícil para alguém que aprendeu a organizar a própria vida em torno do que precisa ser feito.
Quando a pessoa está bem, talvez consiga sustentar essa exigência sem questioná-la. Trabalha, cuida, resolve, produz, ajuda. Quando a depressão reduz sua energia, aquilo que antes parecia natural começa a exigir um esforço enorme. É então que aparece a sensação de fracasso.
Mas talvez exista uma diferença fundamental entre “eu deveria conseguir fazer” e “eu sou uma pessoa que não consegue fazer”.
A primeira frase expressa uma exigência. A segunda já transforma a dificuldade em julgamento sobre si mesma.
Essa passagem pode ser dolorosa. A pessoa deixa de olhar para uma condição que está atravessando e passa a enxergar nela uma definição de quem é.
Também existe uma diferença entre não querer fazer e não conseguir fazer.
Na depressão, essa diferença pode se perder. A pessoa pode desejar voltar a trabalhar, sair, cuidar da casa, encontrar amigos ou retomar atividades de que gostava, mas não conseguir transformar esse desejo em ação. Interpretar essa dificuldade como preguiça acrescenta sofrimento a uma situação que já é difícil.
A exigência também pode continuar funcionando mesmo quando a energia diminui. “Eu tenho que levantar”, “eu preciso dar conta”, “não posso parar”, “não tenho o direito de ficar assim”. Quanto mais distante fica aquilo que a pessoa consegue fazer daquilo que acredita que deveria fazer, maior pode ser a sensação de fracasso.
É aí que a culpa pode se intensificar.
A psicanálise pode ajudar a investigar de onde vem essa exigência e qual lugar o fazer ocupa na história daquela pessoa. O que significa, para ela, não produzir? O que ela imagina que os outros pensam quando não consegue cumprir suas obrigações? Em que momentos aprendeu que precisava estar sempre fazendo alguma coisa para ser reconhecida, querida ou necessária?
Essas perguntas não procuram transformar toda culpa em uma explicação da infância. Elas procuram compreender a forma particular como cada pessoa se relaciona com suas próprias exigências.
Talvez seja por isso que, em determinados momentos, a tarefa mais difícil não seja voltar imediatamente a fazer tudo, mas suportar por algum tempo a experiência de não conseguir fazer.
Isso não significa abandonar a própria vida ou deixar de procurar tratamento. Significa reconhecer que uma pessoa deprimida pode estar atravessando um período em que sua capacidade de ação está reduzida e que exigir dela o mesmo funcionamento de antes pode aumentar ainda mais seu sofrimento.
A pergunta pode então mudar de lugar. Em vez de apenas “por que não consigo fazer nada?”, talvez seja possível começar a perguntar: o que acontece comigo quando não consigo fazer aquilo que esperava de mim?
É nessa diferença entre aquilo que exigimos de nós, aquilo que conseguimos realizar e a maneira como nos julgamos diante disso que pode aparecer algo importante sobre nossa relação conosco mesmos.
Fontes
Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).
Ministério da Saúde. Depressão em adultos: Linha de Cuidado.
Freud, Sigmund. Luto e melancolia.
Winnicott, D. W. O brincar e a realidade.
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