Por que me sinto tão sobrecarregado?

Por que me sinto tão sobrecarregado?

Sentir-se sobrecarregado pode ter relação com a quantidade de coisas que precisamos fazer, mas nem sempre a sobrecarga é apenas de tarefas. Existe também uma sobrecarga emocional, que acontece quando preocupações, conflitos, responsabilidades e sentimentos vão se acumulando sem encontrar espaço suficiente para serem elaborados.

Uma pessoa pode passar o dia trabalhando, cuidando da casa, resolvendo problemas e atendendo às necessidades de outras pessoas. Outra pode ter uma rotina aparentemente tranquila, mas passar boa parte do tempo preocupada com alguém, antecipando problemas, tentando evitar conflitos ou carregando uma decisão difícil. As duas podem terminar o dia com a sensação de que já não conseguem sustentar mais nada.

Por isso, às vezes, quando alguém diz “estou sobrecarregado”, vale perguntar: sobrecarregado de quê?

Nem sempre a resposta está na agenda.

Pode existir uma quantidade grande de coisas para fazer, mas também uma quantidade grande de coisas para sentir e pensar. Preocupações que não cessam, conflitos que continuam presentes, culpa, medo, responsabilidade pelos outros, necessidade de tomar decisões ou a sensação de que é preciso estar disponível o tempo todo.

Algumas dessas experiências podem permanecer em segundo plano durante o dia, enquanto a pessoa continua funcionando. Mas isso não significa que deixem de produzir efeitos.

A psicanálise permite olhar para essa experiência perguntando também pelo lugar que a pessoa ocupa diante das exigências. Freud mostrou como a vida psíquica é atravessada por conflitos e exigências que não vêm apenas do mundo externo. Aquilo que fazemos porque “precisamos” pode também estar relacionado àquilo que acreditamos que devemos ser.

Pode surgir uma diferença importante entre “há coisas que precisam ser feitas” e “eu preciso dar conta de tudo”.

A primeira frase diz respeito às circunstâncias. A segunda já envolve uma posição diante delas.

Winnicott ajuda a pensar o que acontece quando a adaptação ao ambiente se torna uma forma permanente de funcionamento. Uma pessoa pode aprender a responder muito bem ao que os outros precisam, às circunstâncias e às responsabilidades, mas ter pouca oportunidade de perceber o que ela própria precisa.

Nesse caso, a sobrecarga pode não vir apenas do excesso de demandas. Pode vir também da dificuldade de deixar alguma demanda sem resposta.

Isso pode aparecer nas relações. A pessoa sente que precisa cuidar do que os outros sentem, evitar que alguém se decepcione, resolver conflitos, manter tudo funcionando. Pode se tornar difícil separar aquilo que realmente lhe pertence daquilo que pertence ao outro.

E existe ainda o que não foi dito, não foi elaborado ou não encontrou lugar para ser sentido. Uma perda, uma frustração, uma mudança, um conflito familiar ou uma preocupação prolongada podem continuar ocupando espaço mesmo quando a rotina segue normalmente.

Frankl, por uma perspectiva diferente, acrescenta uma pergunta sobre o sentido desse esforço: para que estou sustentando tudo isso?

Nem todo esforço precisa ter um grande propósito. Existem obrigações que simplesmente fazem parte da vida. Mas, quando alguém passa muito tempo submetido a exigências sem conseguir reconhecer aquilo que considera significativo, pode surgir uma sensação particular de desgaste. Faz muito, cuida muito, resolve muito, mas já não sabe exatamente para quê.

A sobrecarga emocional pode ser especialmente difícil de reconhecer porque não aparece necessariamente como uma lista de tarefas. Às vezes, ela aparece como irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração, vontade de se afastar, sensação de estar no limite ou incapacidade de encontrar algum espaço interno de tranquilidade.

Isso não significa que esses sintomas tenham necessariamente uma causa emocional. O corpo e a saúde também precisam ser considerados, especialmente quando o cansaço ou outros sintomas são persistentes. Mas pode ser útil perguntar o que está sendo carregado há tempo demais.

O que tenho tentado sustentar sozinho?

Que preocupações continuam comigo mesmo quando nada está acontecendo naquele momento?

Existe alguém por quem me sinto responsável o tempo todo?

Há alguma coisa que ainda não consegui elaborar?

O que aconteceria se eu deixasse de responder imediatamente a tudo?

Essas perguntas não servem para transformar toda sobrecarga em um problema interno. Há situações em que as condições concretas são realmente excessivas e precisam ser modificadas.

Mas reconhecer a sobrecarga também pode significar perceber que não carregamos apenas aquilo que fazemos. Podemos carregar expectativas, culpas, conflitos, preocupações e responsabilidades afetivas durante muito tempo sem sequer chamá-las de peso.

Talvez seja por isso que algumas pessoas continuem se sentindo sobrecarregadas mesmo quando finalmente têm algumas horas livres. O corpo para, mas aquilo que estava sendo carregado continua presente.

Compreender a sobrecarga emocional pode começar justamente quando conseguimos dar nome ao que estamos sustentando. Não para encontrar uma fórmula para eliminar tudo, mas para perceber o que é possível continuar carregando, o que precisa ser compartilhado e aquilo que talvez já não precise permanecer conosco.

Fontes

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
Ministério da Saúde. Informações sobre estresse e saúde.
Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
Frankl, Viktor E. Em busca de sentido.


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