Por que me sinto vazia mesmo quando está tudo bem?

Por que me sinto vazia mesmo quando está tudo bem?

Há momentos em que, olhando de fora, parece que não existe um motivo claro para se sentir mal. As coisas estão relativamente organizadas, os problemas mais urgentes foram resolvidos, as relações estão bem e, ainda assim, permanece uma sensação difícil de nomear: um vazio.

É comum que, diante disso, a pessoa tente encontrar uma explicação. “Minha vida está bem. Então por que eu não consigo me sentir bem?” A pergunta pode vir acompanhada de culpa, como se a dificuldade de aproveitar aquilo que está funcionando significasse falta de gratidão ou incapacidade de reconhecer o que possui.

Mas estar bem nas circunstâncias externas e sentir-se bem internamente são experiências que não necessariamente coincidem.

O vazio pode aparecer de maneiras diferentes. Algumas pessoas sentem falta de interesse pelas coisas que antes despertavam entusiasmo. Outras continuam trabalhando, convivendo e cumprindo suas responsabilidades, mas percebem que fazem tudo como se estivessem um pouco afastadas de si mesmas. Há também quem procure preencher essa sensação ocupando cada espaço com atividades, pessoas, trabalho, compras, planos ou distrações.

Por algum tempo, isso pode funcionar. Depois, o vazio retorna.

Quando essa sensação é persistente e vem acompanhada de perda de prazer, cansaço, alterações no sono, isolamento ou outras mudanças importantes, também é preciso considerar a possibilidade de depressão ou de outra condição que mereça avaliação profissional. O fato de a pessoa dizer que “está tudo bem” não exclui sofrimento psíquico.

A psicanálise, porém, permite formular uma pergunta diferente: o que exatamente está vazio?

Não se trata necessariamente de descobrir alguma coisa que esteja faltando na vida externa. Pode haver uma diferença entre ter coisas, pessoas e atividades ao redor e sentir que existe um investimento pessoal nessas experiências.

Freud mostrou que nossa relação com o mundo não depende apenas da presença objetiva das coisas. Desejos, lembranças, perdas, identificações e conflitos participam da maneira como investimos emocionalmente nas pessoas e nas experiências. Assim, uma vida aparentemente organizada pode coexistir com uma dificuldade de encontrar nela algo que mobilize verdadeiramente o desejo.

É possível, por exemplo, chegar a uma situação que durante muito tempo foi desejada e descobrir que a realização não produz a satisfação imaginada. Pode acontecer depois de uma mudança profissional, de uma separação, da saída dos filhos de casa ou de uma conquista pela qual se trabalhou durante anos.

A pergunta então deixa de ser apenas “o que está faltando?” e passa a ser “o que eu esperava encontrar quando conseguisse chegar até aqui?”

Viktor Frankl, por outro caminho, ajuda a pensar uma dimensão próxima dessa experiência. Para ele, uma pessoa pode possuir condições externas razoavelmente favoráveis e ainda experimentar um vazio quando não encontra sentido naquilo que vive. Sua análise do chamado vazio existencial não significa que toda sensação de vazio seja uma questão de falta de sentido, nem substitui a compreensão clínica ou psicanalítica. Ela permite, porém, fazer uma pergunta que às vezes fica esquecida: para que estou vivendo aquilo que estou vivendo?

Essa pergunta é diferente de “o que eu tenho?” ou “o que está dando errado?”. Ela se aproxima da relação entre existência, valores, escolhas e aquilo que a pessoa reconhece como significativo.

Frankl também não propõe que o sentido seja simplesmente inventado ou escolhido como uma meta. Em sua perspectiva, ele pode ser encontrado nas possibilidades concretas que uma situação oferece, nas relações, no trabalho, nas experiências e também na maneira como a pessoa se posiciona diante daquilo que não pode modificar.

Essa contribuição conversa com a pergunta sobre o vazio sem reduzi-la a uma fórmula. Talvez uma pessoa tenha alcançado muitas coisas que imaginava desejar e, ainda assim, descubra que nenhuma delas responde àquilo que procura. Talvez tenha passado tanto tempo cumprindo o que era esperado que já não saiba distinguir uma expectativa externa de algo que realmente importa para ela.

Essa questão também pode ser pensada pela psicanálise.

Winnicott oferece uma perspectiva especialmente interessante ao diferenciar a adaptação às exigências do ambiente da experiência de existir de maneira espontânea e criativa. Uma pessoa pode funcionar muito bem, cumprir seus papéis e ser reconhecida por sua capacidade de lidar com as coisas, mas isso não significa necessariamente que esteja vivendo uma experiência de vitalidade.

Por isso, sentir-se vazia quando “está tudo bem” não precisa ser interpretado como ingratidão, falta de vontade ou incapacidade de aproveitar a vida. Pode ser uma oportunidade de perceber que alguma coisa na relação consigo mesma, com os outros, com seus desejos ou com aquilo que considera significativo está pedindo atenção.

Também pode ser difícil reconhecer esse vazio porque, quando não existe uma causa externa evidente, parece que não há o que dizer. “Não aconteceu nada” pode se tornar justamente uma das frases mais difíceis de sustentar em uma conversa clínica.

Mas talvez o que esteja acontecendo não seja algo que possa ser contado como acontecimento. Pode estar relacionado à maneira como a pessoa tem vivido, ao que deixou de desejar, a alguma perda que ainda não encontrou palavras ou à distância que se estabeleceu entre aquilo que faz e aquilo que sente.

É nesse ponto que a escuta psicanalítica pode abrir espaço para uma investigação que não começa procurando imediatamente uma solução. O vazio pode ser escutado, associado a lembranças, relações, expectativas e desejos, até que aquilo que inicialmente parecia sem nome possa ganhar algum sentido.

E talvez algumas perguntas possam permanecer abertas por algum tempo: o que eu esperava encontrar quando minha vida estivesse finalmente organizada? O que ainda me mobiliza? Há alguma coisa que faça sentido para mim além daquilo que simplesmente precisa ser feito?

Quando a sensação é persistente ou vem acompanhada de outros sinais de sofrimento, buscar avaliação profissional também pode ajudar a compreender o que está acontecendo. Não é preciso esperar que exista uma explicação evidente para procurar ajuda.

Fontes

Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).

Ministério da Saúde. Depressão em adultos: Linha de Cuidado.

Freud, Sigmund. Luto e melancolia.

Winnicott, D. W. O brincar e a realidade.

Frankl, Viktor E. Em busca de sentido.


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