Uma pessoa com depressão consegue trabalhar?

Uma pessoa com depressão consegue trabalhar?

Sim. Uma pessoa com depressão pode continuar trabalhando, cumprindo compromissos, cuidando dos filhos, administrando a casa e mantendo uma rotina aparentemente normal. Por isso, às vezes, o sofrimento passa despercebido, inclusive pela própria pessoa.

Existe uma imagem bastante difundida de que a depressão necessariamente impede alguém de sair da cama ou realizar suas atividades. Em alguns casos, isso acontece. Em outros, a pessoa continua fazendo tudo o que precisa fazer, mas com um esforço que ninguém vê. O trabalho pode ser realizado, as responsabilidades podem ser cumpridas e, ainda assim, existir uma sensação constante de cansaço, vazio ou falta de interesse.

Algumas pessoas descrevem essa experiência como viver no modo da obrigação. Fazem o que precisa ser feito porque não podem simplesmente deixar de fazer, mas já não encontram prazer ou envolvimento naquilo que realizam. O dia vai sendo organizado em torno daquilo que é necessário, enquanto pouco espaço resta para aquilo que poderia ser desejado.

É possível também que o trabalho se torne uma maneira de não entrar em contato com o próprio sofrimento. Manter-se ocupada, cumprir horários e resolver problemas pode oferecer uma estrutura quando internamente tudo parece desorganizado. Isso não significa que trabalhar seja uma forma de evitar a depressão em todos os casos. Para algumas pessoas, o trabalho é justamente uma das poucas atividades que ainda preservam algum sentido ou vínculo com os outros.

Winnicott ajuda a pensar essa diferença entre adaptação e experiência pessoal. Uma pessoa pode adaptar-se muito bem às exigências do ambiente e continuar desempenhando aquilo que esperam dela, enquanto sua experiência interna se torna cada vez mais empobrecida. O fato de alguém parecer eficiente não nos diz, por si só, como essa pessoa está vivendo.

O trabalho também pode ser afetado de maneiras menos visíveis. A concentração pode diminuir, decisões simples podem exigir mais esforço, a memória pode parecer pior e tarefas que antes eram feitas com facilidade podem começar a consumir uma quantidade enorme de energia. A pessoa pode passar mais tempo trabalhando para conseguir produzir o mesmo ou começar a adiar aquilo que antes resolvia rapidamente.

Em algumas situações, esse esforço constante para manter o funcionamento acaba aumentando a sensação de inadequação. “Eu consigo trabalhar, então não deveria estar tão mal.” A pessoa se compara com aquilo que consegue fazer e conclui que não tem motivo suficiente para se sentir como se sente. A culpa pode então se somar ao próprio sofrimento.

Na psicanálise, essa contradição merece ser escutada. Não apenas porque alguém consegue continuar trabalhando, mas porque pode existir uma distância cada vez maior entre aquilo que a pessoa faz e aquilo que consegue experimentar enquanto faz. O trabalho pode continuar, mas o desejo pode ter diminuído; as responsabilidades permanecem, enquanto a sensação de estar implicada na própria vida vai desaparecendo.

Por isso, conseguir trabalhar não exclui a possibilidade de depressão. Da mesma forma, ter dificuldade para trabalhar não define sozinho a existência ou a gravidade de um quadro depressivo. O que importa é olhar para o conjunto da experiência, para as mudanças que aconteceram e para o esforço que está sendo necessário para manter aquilo que antes parecia possível.

Às vezes, a pergunta mais reveladora não é apenas “eu ainda consigo trabalhar?”, mas “quanto de mim está sendo necessário para conseguir continuar trabalhando?” Essa diferença pode ajudar a perceber um sofrimento que, justamente por permanecer escondido atrás das responsabilidades cumpridas, acaba demorando mais para ser reconhecido.

Fontes

Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).

Ministério da Saúde. Depressão.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.

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