Por que preciso dar conta de tudo?

Por que preciso dar conta de tudo?

“Se eu não fizer, ninguém vai fazer.”

Talvez essa seja uma das frases que mais aparecem quando uma pessoa sente que precisa dar conta de tudo. Ela pode estar cansada, sobrecarregada e até consciente de que está fazendo demais, mas ainda assim não consegue simplesmente deixar alguma coisa para depois ou confiar que outra pessoa vai assumir.

Há situações em que essa percepção corresponde à realidade. Existem responsabilidades que realmente dependem de nós, pessoas que precisam da nossa atenção e momentos em que não há muita possibilidade de escolher quem fará determinada coisa. O problema aparece quando essa posição se torna permanente e a pessoa passa a sentir que tudo precisa passar por ela.

Ela resolve, organiza, antecipa, acompanha, lembra, providencia. Quando alguém oferece ajuda, pode até aceitar, mas continua verificando se tudo está sendo feito como deveria. Em outras situações, nem chega a pedir ajuda. Vai acumulando tarefas e responsabilidades até chegar ao limite, porque pedir parece mais difícil do que continuar fazendo.

Aos poucos, dar conta de tudo pode deixar de ser apenas uma necessidade e passar a fazer parte da maneira como a pessoa se reconhece. Ela se torna aquela que resolve, que sustenta, que está disponível, que não deixa as coisas desandarem.

Essa posição pode trazer reconhecimento e também uma sensação de segurança. Saber o que precisa ser feito, estar atenta e conseguir antecipar problemas oferece a impressão de que alguma coisa está sob controle. Por isso, abrir mão de uma parte dessa responsabilidade pode ser muito mais difícil do que simplesmente dividir tarefas.

Pode existir, por trás disso, uma questão menos evidente: o que significa para mim deixar alguma coisa nas mãos de outra pessoa?

Talvez seja difícil confiar. Talvez exista medo de que o outro faça de maneira diferente. Talvez depender de alguém desperte insegurança. Ou talvez exista uma experiência antiga de ter precisado assumir responsabilidades cedo demais e aprendido que era mais seguro contar consigo mesma.

Essa dificuldade também pode aparecer na relação com a própria ajuda. Há pessoas que conseguem oferecer muito aos outros, mas encontram grande dificuldade quando precisam pedir alguma coisa. Podem pensar que estão incomodando, que deveriam conseguir sozinhas ou que pedir significa demonstrar fragilidade.

E, quando alguém oferece ajuda espontaneamente, ainda assim pode ser difícil aceitá-la. A pessoa agradece, mas continua tentando fazer uma parte que já poderia ter deixado com o outro. Às vezes, aceita a ajuda, mas sente necessidade de compensá-la imediatamente, como se receber criasse uma dívida.

Nesse caso, não se trata apenas de falta de oportunidade para ser ajudado. Pode existir uma dificuldade de ocupar a posição de quem precisa do outro.

A psicanálise permite olhar para essa exigência sem reduzi-la a uma questão de organização pessoal. Freud mostrou como determinadas exigências podem ser interiorizadas e continuar atuando mesmo quando já não existe uma cobrança externa direta. Assim, ninguém precisa dizer que você deve cuidar de tudo para que exista, dentro de você, uma sensação persistente de que deveria.

“Eu tenho que resolver.”

“Não posso deixar isso para depois.”

“Se eu não cuidar, quem vai cuidar?”

“Já que eu consigo fazer, preciso fazer.”

Quando essas exigências se tornam muito fortes, o sentimento de culpa pode aparecer sempre que a pessoa tenta recuar. Descansar pode parecer irresponsabilidade. Recusar um pedido pode parecer egoísmo. Deixar uma tarefa para outra pessoa pode provocar a sensação de que está falhando com alguém. Pedir ajuda também pode despertar esse sentimento, como se precisar do outro significasse estar fazendo menos do que deveria.

Por isso, existe uma diferença importante entre ser responsável por alguma coisa e sentir-se responsável por tudo.

Ser responsável implica reconhecer aquilo que efetivamente depende de nós e responder pelas nossas escolhas. Sentir-se responsável por tudo envolve também carregar aquilo que pertence aos outros, tentar antecipar acontecimentos que não podemos controlar e assumir tarefas que talvez nem tenham sido colocadas sob nossa responsabilidade.

Essa diferença nem sempre é fácil de perceber quando a pessoa está acostumada a ocupar esse lugar.

Winnicott ajuda a pensar o quanto a adaptação às necessidades do ambiente pode se tornar uma maneira predominante de estar no mundo. Uma pessoa que aprendeu a perceber rapidamente o que os outros precisam pode desenvolver uma grande capacidade de adaptação, cuidado e antecipação. Essa capacidade pode ser importante, mas também pode deixar pouco espaço para perceber aquilo que ela própria deseja ou necessita.

Quando a atenção está sempre voltada para o que precisa ser resolvido, talvez fique difícil reconhecer que também é possível precisar de alguém.

Há pessoas que sabem exatamente o que fazer quando alguém próximo está sofrendo, mas não sabem como responder quando alguém pergunta: “Como posso ajudar você?”. Outras se sentem mais confortáveis oferecendo cuidado do que recebendo. Estar na posição de quem cuida preserva uma sensação conhecida de competência e controle; ser cuidado exige aceitar que, por algum tempo, outra pessoa ocupará esse lugar.

Isso pode tocar em algo bastante delicado: o que acontece comigo quando não sou eu quem sustenta a situação?

É possível passar anos sendo a pessoa que resolve e, quando finalmente alguém se dispõe a assumir uma parte, sentir estranhamento, desconfiança ou até uma espécie de perda de lugar.

Também pode acontecer de a pessoa só perceber o quanto está cansada quando alguma coisa interrompe esse funcionamento. Enquanto há uma tarefa esperando, o cansaço pode ser adiado. Enquanto alguém precisa dela, suas próprias necessidades parecem menos urgentes.

Isso ajuda a compreender por que a sobrecarga pode persistir mesmo quando a pessoa sabe que deveria diminuir o ritmo. Não basta reconhecer que está fazendo demais. É preciso também compreender o que torna tão difícil deixar de fazer, pedir ajuda e permitir que alguém faça por nós.

E talvez exista aí outra questão: o que eu ganho ao ser aquela pessoa que sempre dá conta?

Pode haver reconhecimento, confiança, segurança ou a sensação de ser necessária. Para algumas pessoas, ser indispensável também se tornou uma maneira importante de ocupar um lugar nas relações. Quando alguém depende delas, sabem exatamente o que fazer e qual é sua função.

Nesse caso, deixar de ser necessária pode provocar uma espécie de vazio. Se outra pessoa assume a tarefa, se ninguém precisa da minha intervenção ou se alguma coisa pode continuar funcionando sem mim, quem sou eu nesse espaço?

Isso não significa que cuidar dos outros seja um problema ou que toda responsabilidade deva ser abandonada. Os vínculos envolvem cuidado, compromisso e reciprocidade. Pedir ajuda também não significa incapacidade, assim como aceitar o cuidado de alguém não cria automaticamente uma dívida.

A questão está em perceber quando cuidar deixou de ser uma escolha e passou a ser a única maneira conhecida de se sentir segura, importante ou necessária.

Também pode ser útil observar o que acontece quando alguém faz alguma coisa de maneira diferente da sua. Você consegue deixar que a pessoa faça ou sente necessidade de acompanhar, corrigir ou refazer? Consegue aceitar que algo seja feito de uma forma que não escolheria?

Às vezes, a dificuldade de delegar não está apenas na ideia de que o outro não fará bem. Pode estar na dificuldade de suportar não saber exatamente como algo vai acontecer.

Dar conta de tudo oferece uma sensação de controle. Deixar alguma coisa nas mãos de outra pessoa implica aceitar uma parcela de incerteza. Pedir ajuda também significa reconhecer que não precisamos conseguir tudo sozinhos.

Talvez seja justamente essa experiência de depender um pouco do outro que seja difícil.

Por isso, pode ser interessante começar a distinguir: o que realmente depende de mim? O que pertence ao outro? O que precisa ser feito agora e o que pode esperar? E o que eu poderia permitir que alguém fizesse por mim?

Essas perguntas não eliminam as responsabilidades. Elas podem apenas ajudar a torná-las mais proporcionais àquilo que realmente cabe a cada um.

Porque talvez o problema não seja ter muitas coisas para fazer. Talvez seja ter aprendido que, para que tudo fique bem, é preciso estar sempre presente, sempre atento e sempre pronto para resolver, mesmo quando outra pessoa poderia dividir esse lugar com você.

Fontes

Freud, Sigmund. O ego e o id.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.


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Se você percebe que assumiu tantas responsabilidades que já não sabe exatamente o que pode deixar nas mãos de outras pessoas, falar sobre isso pode ajudar a compreender por que pedir e receber ajuda também pode ser tão difícil.

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