Por que tenho dificuldade de dizer não?

Por que tenho dificuldade de dizer não?

Dizer não parece simples quando pensamos apenas na palavra. Alguém pede alguma coisa, avaliamos se podemos ou queremos fazer e respondemos. Na prática, porém, para algumas pessoas essa resposta envolve muito mais do que decidir se têm tempo ou disposição.

Antes mesmo de responder, podem surgir várias preocupações: a outra pessoa vai ficar chateada? Vai pensar que sou egoísta? Será que vai deixar de contar comigo? E se eu precisar dela depois? Talvez seja melhor aceitar, mesmo que naquele momento eu já esteja cansada ou tenha outras coisas para fazer.

O “sim” acaba sendo pronunciado antes que a própria vontade tenha tempo de aparecer.

Depois, pode vir a sobrecarga. A pessoa percebe que assumiu mais uma responsabilidade, sente-se contrariada, talvez fique irritada consigo mesma e começa a pensar por que aceitou. Algumas vezes, aquilo que poderia ter sido apenas um pedido do outro transforma-se em mais uma obrigação que ela carrega.

Por isso, a dificuldade de dizer não nem sempre está relacionada à falta de clareza sobre o que queremos. Podemos saber perfeitamente que não queremos fazer alguma coisa e, ainda assim, não conseguir recusar.

A questão passa então a ser o que está em jogo nessa recusa.

Para algumas pessoas, dizer não parece significar decepcionar alguém. Para outras, pode despertar medo de perder o afeto, a consideração ou o lugar que ocupam em uma relação. Há também quem tenha aprendido que ser uma pessoa boa, disponível ou confiável significa estar sempre pronta para atender ao que os outros precisam.

É nesse ponto que o sentimento de culpa pode aparecer.

Sentir culpa depois de dizer não não significa necessariamente que tenhamos feito algo errado. Podemos recusar um pedido legítimo, mas que não queremos ou não podemos atender, e ainda assim experimentar a sensação de que fizemos alguma coisa condenável. O sentimento de culpa pode surgir justamente porque dizer não entra em conflito com uma imagem que construímos de nós mesmos: alguém que ajuda, que não abandona, que está disponível, que não decepciona.

Há uma diferença, portanto, entre ser responsável por alguém e sentir-se culpado por não atender a todas as necessidades do outro.

Quando essa distinção fica pouco clara, qualquer limite pode parecer uma falta. Se alguém ficou decepcionado com a minha recusa, posso concluir que fui egoísta. Se alguém precisou de ajuda e eu não pude oferecer, posso sentir que deveria ter feito mais. O sentimento de culpa passa então a funcionar como uma espécie de cobrança interna, mesmo quando não existe uma obrigação real que eu tenha deixado de cumprir.

Na perspectiva da psicanálise, isso pode ser pensado a partir das exigências que vamos interiorizando ao longo da vida. Freud mostrou como determinadas normas e ideais podem continuar atuando dentro de nós mesmo quando já não existe alguém dizendo diretamente o que devemos fazer. Assim, uma pessoa pode dizer não a alguém e, imediatamente, encontrar dentro de si uma outra voz perguntando se deveria ter sido mais disponível, mais generosa ou mais compreensiva.

Nessas situações, o problema não está apenas no pedido que chega, mas no significado que a resposta adquire.

O “não” pode ser vivido como uma ameaça à relação, mas também como uma transgressão de uma regra interna: eu deveria estar disponível; eu não deveria decepcionar; se posso ajudar, preciso ajudar.

Françoise Dolto, ao pensar a constituição da pessoa nas relações familiares e na linguagem, chamou atenção para a importância de reconhecer a criança como alguém que possui uma experiência e uma posição próprias. Ao longo da vida, porém, podemos encontrar relações em que essa diferença entre o que eu quero e o que o outro espera torna-se difícil de sustentar.

Quando aprendemos muito cedo a nos adaptar às expectativas ao redor, perceber o que queremos pode tornar-se menos imediato do que perceber o que os outros esperam de nós.

Isso pode aparecer de maneira bastante cotidiana. A pessoa recebe um convite e responde imediatamente que sim, antes de verificar se gostaria de ir. Alguém pede uma ajuda e ela se oferece, mesmo já tendo compromissos. Um colega transfere uma tarefa e ela assume porque parece mais fácil aceitar do que lidar com o desconforto de recusar.

Em todos esses casos, pode existir uma antecipação da reação do outro. Antes que o outro fique decepcionado, eu me adapto. Antes que alguém peça novamente, eu me ofereço. Antes que apareça um conflito, eu cedo.

A ansiedade pode participar desse movimento porque dizer não envolve uma dose inevitável de incerteza. Não podemos controlar completamente a reação de quem recebe nossa recusa. A pessoa pode compreender, pode insistir, pode ficar contrariada ou simplesmente seguir adiante. Quando existe grande necessidade de prever as consequências das próprias escolhas, essa incerteza pode ser especialmente difícil.

O sentimento de culpa pode tornar essa situação ainda mais complicada. Mesmo quando o outro aceita o limite, a pessoa pode continuar se perguntando se deveria ter feito diferente. Às vezes, o sofrimento não vem da reação de quem recebeu o não, mas daquilo que acontece dentro de quem o pronunciou.

Por isso, compreender a dificuldade de dizer não envolve perguntar não apenas “por que tenho medo de desagradar?”, mas também “por que me sinto culpado quando considero a possibilidade de colocar um limite?”

Talvez exista uma fantasia de que, para ser uma pessoa boa ou merecedora de amor, é preciso estar disponível. Talvez cuidar dos outros tenha se tornado uma maneira importante de se sentir necessário. Talvez exista dificuldade em suportar a ideia de que alguém possa ficar frustrado sem que isso signifique que a relação está ameaçada.

Há ainda uma situação bastante comum: a pessoa se ressente de fazer pelos outros aquilo que, em muitos casos, ninguém chegou a exigir dela.

Ela esperava que percebessem seus limites sem que precisasse dizê-los. Esperava que o outro compreendesse seu cansaço, sua falta de tempo ou sua falta de vontade. Quando isso não acontece, pode surgir irritação, mas também culpa por estar irritada.

A relação entre culpa e dificuldade de dizer não pode, portanto, produzir um movimento circular. A pessoa aceita para não se sentir culpada, fica sobrecarregada, começa a se ressentir e depois sente culpa por estar ressentida. Em vez de o limite aparecer no momento em que seria possível colocá-lo, ele pode surgir mais tarde na forma de exaustão, irritação ou afastamento.

Isso não significa que toda culpa seja excessiva ou que toda recusa seja necessariamente adequada. Existem situações em que temos responsabilidades reais, promessas feitas ou consequências que precisamos considerar. O sentimento de culpa também pode nos levar a refletir sobre algo que fizemos e sobre a maneira como tratamos alguém.

A questão é perceber quando esse sentimento deixa de apontar para uma responsabilidade concreta e passa a aparecer simplesmente porque reconhecemos que também temos limites e desejos próprios.

Dizer não também não significa deixar de considerar o outro. Podemos amar alguém, ajudá-lo, estar disponíveis em determinadas situações e, ainda assim, não atender a todos os pedidos. Os vínculos comportam diferenças, frustrações, negociações e limites.

Talvez seja interessante observar o momento que antecede o “sim”. O que você sente quando alguém pede alguma coisa? O que imagina que aconteceria se respondesse que não pode? O que teme que o outro pense a seu respeito? E, quando percebe que não quer fazer aquilo, o que aparece primeiro: medo de desagradar, sentimento de culpa ou preocupação com a relação?

Antes de considerar todas essas possibilidades, você consegue perceber o que gostaria de responder?

Essa pergunta pode ser especialmente importante. Porque recuperar a possibilidade de dizer não começa antes da palavra ser pronunciada: começa quando a própria pessoa consegue reconhecer que tem uma vontade diferente daquela que o outro espera e pode suportar que essa diferença exista.

Fontes

Dolto, Françoise. A imagem inconsciente do corpo.

Freud, Sigmund. O ego e o id.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.


Talvez você também queira ler

Por que sinto que tudo depende de mim?
Por que me sinto tão sobrecarregado?
Por que tenho dificuldade de reconhecer meus próprios limites?
Por que sinto que nunca faço o suficiente?


Se você percebe que costuma aceitar mais do que gostaria e depois se sente sobrecarregado ou culpado, falar sobre isso pode ajudar a compreender o que torna tão difícil sustentar a própria vontade diante do outro.

Entre em contato comigo