
Quando foi a última vez que você terminou um dia pensando que fez o suficiente?
Talvez você tenha trabalhado, resolvido problemas, cuidado de outras pessoas, cumprido compromissos e feito tudo aquilo que precisava ser feito. Ainda assim, ao chegar ao fim do dia, a sensação pode ser a de que alguma coisa ficou para trás. Não necessariamente uma tarefa concreta. Às vezes, é apenas a impressão de que você poderia ter feito mais, se esforçado mais, aproveitado melhor o tempo ou correspondido melhor ao que esperavam de você.
É diferente de simplesmente ter coisas pendentes. A vida sempre deixa alguma coisa por fazer. O que chama atenção é quando a sensação de insuficiência permanece mesmo depois que aquilo que precisava ser feito já foi realizado. A pessoa não encontra facilmente um ponto em que possa dizer: “por hoje, foi suficiente”.
Uma conquista pode rapidamente se transformar em uma nova obrigação. O reconhecimento pelo que foi feito perde espaço diante daquilo que ainda poderia ter sido melhor. Alguém recebe um elogio e pensa imediatamente no que poderia ter feito diferente. Conclui um trabalho importante e começa a revisar mentalmente suas falhas. Cuida de muitas pessoas durante o dia e, à noite, lembra justamente daquela pequena coisa que não conseguiu fazer.
Nessas situações, talvez seja interessante perguntar: o que significa, para mim, fazer o suficiente?
Para algumas pessoas, essa medida parece estar sempre um pouco além do que conseguem alcançar. Existe uma exigência de fazer mais, melhorar mais, corresponder mais ou estar mais disponível. O problema é que, quando a medida nunca se fixa, o esforço também não encontra um ponto de chegada.
A psicanálise permite pensar que determinadas exigências não vêm apenas das circunstâncias atuais. Freud mostrou como valores, proibições e ideais podem ser interiorizados e continuar atuando dentro de nós. Assim, mesmo quando ninguém está cobrando diretamente, podemos continuar nos cobrando como se houvesse sempre alguém avaliando aquilo que fizemos.
A pessoa pode saber racionalmente que trabalhou o suficiente e, ainda assim, sentir que deveria ter feito mais.
É importante distinguir essa sensação de insuficiência do sentimento de culpa. Eles podem aparecer juntos, mas não são a mesma coisa.
O sentimento de culpa costuma estar relacionado à percepção de que fizemos algo errado, deixamos de cumprir uma responsabilidade ou ferimos alguém ou algum valor que consideramos importante. Já a sensação de nunca fazer o suficiente pode existir mesmo quando não há uma falta concreta.
Posso ter cumprido um compromisso, ajudado quem precisava de mim e feito aquilo que estava ao meu alcance, mas continuar sentindo que fiquei aquém de alguma coisa.
Nesse caso, não existe necessariamente algo que precise ser reparado. Existe uma medida interna que continua dizendo que falta alguma coisa.
Essa diferença pode ser importante porque, quando a insuficiência é confundida com culpa, a pessoa pode passar a viver como se estivesse permanentemente em dívida. Cada realização serve apenas para diminuir por algum tempo essa dívida, que logo parece reaparecer.
Também podemos pensar na relação entre essa exigência e o lugar que a pessoa aprendeu a ocupar nas relações. Ser responsável, disponível, competente ou capaz de resolver problemas pode ter sido uma forma importante de receber reconhecimento e construir um sentimento de pertencimento.
Quando esse lugar se torna muito central, deixar de fazer pode provocar mais do que descanso. Pode provocar insegurança.
Se não estou resolvendo alguma coisa, ajudando alguém, trabalhando ou correspondendo às expectativas, quem sou eu nesse momento?
Winnicott ajuda a pensar justamente a diferença entre uma existência organizada principalmente pela adaptação às exigências do ambiente e uma experiência em que também existe espaço para a espontaneidade. Quando a pessoa passa muito tempo respondendo ao que precisa ser feito, pode ficar difícil perceber o que deseja quando nenhuma exigência está diante dela.
Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas encontram dificuldade até mesmo para reconhecer aquilo que gostariam de fazer por si mesmas. A pergunta “o que você quer?” pode ser mais difícil de responder do que “o que você precisa fazer?”.
Existe ainda uma diferença entre querer fazer bem alguma coisa e precisar provar continuamente que somos capazes. O desejo de realizar, cuidar ou aperfeiçoar pode ser fonte de satisfação. A exigência permanente, por outro lado, pode transformar cada realização em apenas uma etapa para chegar a um lugar que nunca se alcança.
Talvez por isso seja interessante observar o que acontece depois de uma conquista. Você consegue reconhecer aquilo que fez ou imediatamente começa a procurar o que faltou? Quando alguém reconhece seu esforço, consegue receber esse reconhecimento ou sente necessidade de explicar por que poderia ter feito melhor?
E quando você não consegue fazer tudo?
Surge o sentimento de culpa? Medo de decepcionar alguém? Vergonha? Irritação consigo mesmo? Ou simplesmente a sensação de que deveria ter conseguido?
Essas diferenças podem dizer bastante sobre a natureza da exigência.
Em alguns casos, a sensação de nunca fazer o suficiente também está relacionada a circunstâncias concretas. Há períodos em que realmente existem responsabilidades demais, pouco tempo, problemas que dependem de nós e pessoas que precisam da nossa atenção. Não seria adequado transformar toda sobrecarga em uma questão interna. Às vezes, a pessoa está fazendo muito porque realmente há muito a ser feito.
Ainda assim, mesmo nessas situações, pode ser importante perceber como cada um se relaciona com os próprios limites. Duas pessoas podem enfrentar uma quantidade semelhante de responsabilidades e experimentar de maneiras diferentes a possibilidade de dizer “isso é o que consigo fazer agora”.
Talvez a questão não seja encontrar uma quantidade perfeita de coisas realizadas, mas compreender por que é tão difícil reconhecer um limite para a própria exigência.
O que aconteceria se, em algum momento, você pudesse dizer que fez o que era possível fazer naquele dia, sem imediatamente procurar aquilo que faltou?
Para algumas pessoas, essa possibilidade pode provocar estranhamento. Afinal, se durante muito tempo o valor pessoal esteve ligado ao esforço, à disponibilidade ou à capacidade de corresponder, diminuir a cobrança pode parecer quase como deixar de ser quem se é.
Por isso, sentir que nunca fazemos o suficiente pode envolver uma questão mais profunda do que produtividade. Pode envolver a maneira como aprendemos a reconhecer nosso próprio valor e o lugar que ocupamos diante das expectativas dos outros.
Talvez seja preciso compreender, pouco a pouco, que reconhecer o próprio limite não significa abandonar responsabilidades. Significa também poder reconhecer aquilo que já foi feito sem transformar toda realização em uma nova cobrança.
Fontes
Freud, Sigmund. O ego e o id.
Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
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