
“Como sair dessa situação? Eu já tentei várias coisas e continuo do mesmo jeito.”
A pergunta costuma aparecer quando a pessoa sente que está presa a um estado que não consegue modificar. Levantar da cama pode exigir um esforço enorme. Trabalhar pode parecer pesado. Encontrar alguém pode dar vontade de desistir. E aquilo que antes trazia algum prazer pode ter perdido completamente o sentido.
Quando existe um quadro depressivo, a própria capacidade de se mobilizar pode estar comprometida. Cansaço, perda de interesse, alterações do sono, dificuldade de concentração e sentimentos de culpa ou desvalorização podem fazer com que tarefas comuns se tornem muito difíceis. Por isso, dizer a alguém deprimido para “reagir”, “pensar positivo” ou “se esforçar mais” pode acrescentar culpa a um sofrimento que já é grande.
A depressão pode ser tratada. A Organização Mundial da Saúde reconhece a psicoterapia e os medicamentos como formas eficazes de tratamento, cuja escolha depende da gravidade do quadro e das circunstâncias de cada pessoa. Uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e indicar o cuidado mais adequado.
Mas existe outra dimensão na pergunta “como sair?”.
Às vezes, quando alguém pergunta isso, está imaginando que precisa descobrir rapidamente o que fazer para voltar a ser como era antes. A própria ideia de “sair” pode carregar a expectativa de que existe um caminho direto entre o sofrimento e a recuperação. A experiência psíquica costuma ser menos linear.
Na psicanálise, não se trata apenas de eliminar aquilo que incomoda. O sofrimento também pode ser escutado. Isso significa procurar compreender o que está acontecendo com aquela pessoa, o que mudou, o que perdeu importância, o que foi perdido e como ela passou a se relacionar consigo mesma.
Freud, ao escrever sobre a melancolia, observou como uma perda pode produzir um afastamento do mundo e uma diminuição do interesse pelas coisas. Em algumas situações, a própria pessoa passa a dirigir contra si uma severidade que antes estava relacionada àquilo que perdeu. Isso ajuda a compreender por que a culpa pode aparecer de maneira tão intensa na depressão.
Uma pessoa pode dizer: “Eu sei que deveria levantar e fazer as coisas, mas não consigo. Depois me sinto culpada por não conseguir.” Nesse caso, a culpa não necessariamente produz movimento. Pode produzir ainda mais paralisia.
Por isso, sair da depressão não significa simplesmente obrigar-se a funcionar novamente. Pode significar também compreender o que tornou tão difícil desejar, agir, relacionar-se e encontrar prazer.
E esse processo pode começar de maneiras diferentes. Procurar ajuda, conseguir falar sobre o que está acontecendo, reconhecer que o sofrimento existe e permitir que alguém possa escutá-lo já são movimentos diferentes de permanecer completamente sozinho diante dele.
Não existe uma única maneira de sair da depressão. Para algumas pessoas, o tratamento médico será necessário. Para outras, a psicoterapia terá um papel importante. Em muitos casos, diferentes formas de cuidado serão combinadas. O que não precisa acontecer é transformar o sofrimento em uma prova de resistência.
Se você está deprimido, talvez a pergunta não precise ser apenas “como faço para sair disso?”.
Pode ser também: o que está me mantendo aqui? O que aconteceu comigo? O que perdi? O que deixou de fazer sentido?
Às vezes, é a partir dessas perguntas que aquilo que parecia apenas um estado sem saída começa a ganhar alguma forma e, com ela, a possibilidade de ser compreendido.
Fontes
Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).
Ministério da Saúde. Depressão.
Freud, Sigmund. Luto e melancolia (1917).
Talvez você também queira ler
Por que tenho dificuldade de descansar sem me sentir culpada?
Por que me sinto culpada por não conseguir fazer nada?
Se você reconhece algo de sua experiência nessa pergunta e gostaria de conversar sobre psicoterapia, entre em contato comigo →.
