
Para algumas pessoas, descansar não é exatamente descansar.
Quando finalmente têm algum tempo livre, aparece a sensação de que deveriam estar fazendo alguma coisa. Arrumar a casa, responder uma mensagem, trabalhar, resolver alguma pendência, organizar o que ficou para depois.
Mesmo quando não existe uma obrigação urgente, pode surgir uma inquietação acompanhada de culpa: “Eu deveria estar fazendo alguma coisa”.
O descanso, que poderia ser vivido como uma pausa, passa a ser experimentado como perda de tempo.
Essa dificuldade pode ter relação com a maneira como cada pessoa aprendeu a atribuir valor ao que faz. Há quem tenha crescido ouvindo que era preciso ser útil, responsável, produtivo, dar conta de tudo. Há quem tenha encontrado reconhecimento justamente quando correspondia às expectativas dos outros.
Pouco a pouco, fazer pode se tornar uma forma de sentir que se está cumprindo um lugar.
E então surge uma pergunta difícil: o que acontece quando eu não estou fazendo nada?
Às vezes, o incômodo não está propriamente no descanso. Está naquilo que aparece quando deixamos de ocupar o tempo com tarefas.
Sem uma atividade para realizar, podem surgir pensamentos, desejos, lembranças ou sentimentos que estavam sendo mantidos à distância pela própria movimentação cotidiana.
Também pode existir uma dificuldade em separar o que fazemos daquilo que somos. Quando o valor pessoal fica muito ligado à capacidade de produzir, cuidar, resolver e atender às necessidades dos outros, parar pode trazer uma sensação estranha de inutilidade.
Nesse caso, descansar pode ser vivido quase como uma transgressão.
A culpa aparece como se estivéssemos deixando de cumprir alguma obrigação, mesmo quando ninguém está nos cobrando nada.
A psicanálise pode ajudar a olhar para essa culpa de outra maneira. Em vez de perguntar apenas como conseguir descansar sem se sentir mal, podemos investigar de onde vem essa exigência de estar sempre fazendo alguma coisa.
Para quem preciso estar disponível o tempo todo? O que significa, para mim, não ser necessária naquele momento? O que imagino que aconteceria se eu simplesmente parasse?
Essas perguntas podem levar à maneira como construímos nossas relações, às expectativas que recebemos e também às exigências que passamos a fazer a nós mesmos.
Nem toda culpa é sinal de que fizemos algo errado. Às vezes, ela aparece quando nos afastamos de uma posição à qual estamos muito acostumados.
Talvez por isso algumas pessoas consigam trabalhar durante horas sem sentir culpa, mas tenham dificuldade de permanecer em silêncio por alguns minutos.
Descansar pode significar mais do que interromper uma atividade. Pode significar abrir um espaço em que não precisamos, naquele instante, produzir, cuidar, resolver ou corresponder.
E esse espaço nem sempre é fácil de ocupar.
Se essa dificuldade de descansar acompanha você há algum tempo e começa a interferir na maneira como vive, talvez valha a pena olhar para ela com mais atenção. A psicoterapia pode ser um espaço para compreender o que existe por trás dessa necessidade constante de fazer.
Fonte
Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930).
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