
A irritação pode começar de maneira quase imperceptível. A pessoa se percebe mais impaciente, responde de forma mais ríspida ou se incomoda com coisas que antes conseguia deixar passar. Em outros casos, é alguém próximo que percebe primeiro: “Você está muito irritado ultimamente”. Às vezes, a própria pessoa nem havia se dado conta da mudança.
Pode ser que esteja passando por uma fase especialmente exigente e pense que logo vai passar. Há muito trabalho, algumas preocupações, pouco descanso, problemas familiares ou outras responsabilidades que precisam ser resolvidas. Como existe uma razão concreta para o cansaço, parece natural pensar que basta atravessar esse período e as coisas voltarão ao normal.
O problema é que algumas fases se prolongam. O que parecia temporário pode durar semanas ou meses, e a pessoa vai se acostumando a funcionar cansada, tensa e com pouca margem para lidar com novas situações.
O estresse pode estar relacionado a esse aumento da irritabilidade. Quando o organismo permanece submetido por muito tempo a situações de tensão, podem aparecer cansaço, alterações do sono, dificuldade de concentração, tensão muscular, inquietação e mudanças no humor. A irritabilidade pode fazer parte desse conjunto.
Isso ajuda a compreender por que uma solicitação a mais, uma interrupção, um atraso ou uma conversa que exigiria alguma disponibilidade podem parecer muito mais difíceis de suportar quando a pessoa já está cansada.
Ela talvez continue trabalhando, cuidando da casa e atendendo às necessidades dos outros, mas já não consegue responder às situações com a mesma disposição.
Essa mudança pode ser percebida por ela mesma ou pelas pessoas ao redor. O companheiro ou a companheira nota que qualquer coisa provoca uma resposta mais dura. Os filhos percebem que a paciência diminuiu. Colegas de trabalho observam que alguém antes tranquilo está mais impaciente.
Isso pode ser especialmente difícil quando a irritabilidade não combina com a imagem que a pessoa tem de si mesma. Ela pode pensar que está apenas cansada, que precisa descansar um pouco ou que está atravessando uma fase ruim.
E talvez realmente esteja.
Mas, quando isso se prolonga, vale perguntar o que está acontecendo.
A psicanálise permite olhar para essa questão sem reduzir a irritabilidade a uma simples reação do organismo. Freud mostrou como conflitos, exigências e tensões participam da vida psíquica e podem encontrar diferentes formas de expressão. Isso não significa que toda irritação esconda um conflito inconsciente. Uma pessoa cansada pode simplesmente estar cansada, e uma rotina excessivamente exigente pode produzir tensão por razões bastante concretas.
Ainda assim, pode ser interessante observar o que acontece antes da irritação aparecer.
Talvez a pessoa esteja há muito tempo tentando atender às necessidades de todos. Pode ter dificuldade de dizer não, de pedir ajuda ou de reconhecer que já fez o que era possível. Talvez esteja assumindo mais responsabilidades do que consegue sustentar e esperando que os outros percebam isso sem que precise dizer.
Nessas situações, pode surgir uma sensação de injustiça: “Por que tudo sobra para mim?”
Essa pergunta pode apontar para uma situação realmente desigual, mas também pode levar a uma reflexão sobre a maneira como as responsabilidades foram sendo distribuídas. Às vezes, as pessoas ao redor exigem demais. Em outras, a própria pessoa assumiu tarefas sem conseguir dizer que não poderia assumi-las e depois começa a se ressentir por estar carregando aquilo sozinha.
Não se trata de atribuir a ela a responsabilidade pela própria irritação. Trata-se de compreender como essa posição foi construída e por que pode ser tão difícil modificá-la.
Winnicott ajuda a pensar o quanto a adaptação às necessidades do ambiente pode ocupar espaço na experiência de uma pessoa. Quem passa muito tempo tentando corresponder, cuidar, organizar e manter tudo funcionando pode chegar a um ponto em que já não dispõe da mesma liberdade para responder ao que acontece de maneira espontânea.
Quando quase tudo é vivido como algo que precisa ser administrado, uma nova demanda pode ser sentida como excesso.
A irritabilidade também pode aparecer principalmente nas relações mais próximas. Isso pode provocar desconforto e até sentimento de culpa, especialmente quando a pessoa percebe que está tratando com impaciência justamente aqueles de quem gosta.
A presença dessa irritação, porém, não significa necessariamente que o problema esteja nessas relações. Muitas vezes, são os vínculos em que existe mais intimidade que acabam recebendo uma tensão acumulada em outros lugares. Depois de passar o dia atendendo às exigências e mantendo tudo funcionando, a pessoa pode chegar em casa com pouca energia disponível.
Pode então se arrepender da forma como respondeu e pensar que não deveria ter agido daquela maneira.
O sentimento de culpa acrescenta outra camada. A pessoa se irrita, sente-se mal por ter se irritado e passa a exigir de si mesma que volte imediatamente a ser paciente, tranquila e disponível. Em vez de compreender o que estava acontecendo antes daquela reação, começa apenas a se cobrar por ela.
Talvez seja mais interessante observar a sequência.
O que estava acontecendo antes da irritação? Como estava o sono? Há quanto tempo o cansaço vem se acumulando? Essa pessoa tem conseguido descansar ou está sempre esperando terminar alguma coisa para então parar? Tem pedido ajuda? Tem conseguido dizer não? Está vivendo uma situação que realmente exige muito dela?
Essas perguntas ajudam a perceber que a irritabilidade raramente precisa ser compreendida isoladamente.
Também vale observar se aquilo que parecia ser “só uma fase” está começando a interferir nas relações, no trabalho, no sono ou na própria maneira de viver. Quando a irritabilidade persiste, se torna intensa ou aparece acompanhada de outros sintomas importantes, uma avaliação profissional pode ser necessária. Alterações do sono, cansaço intenso, palpitações, dores ou mudanças importantes de humor podem ter diferentes causas e não devem ser automaticamente atribuídos ao estresse.
Uma fase difícil realmente pode passar. Mas, quando as condições que produzem o cansaço permanecem, esperar simplesmente que ela termine pode significar continuar vivendo da mesma maneira.
A irritabilidade pode então ser compreendida não apenas como algo a ser eliminado, mas como uma mudança que merece ser escutada. Pode haver excesso de tarefas, falta de descanso, conflitos que não encontraram espaço para elaboração ou uma forma de viver em que a pessoa vem exigindo de si mais do que consegue sustentar.
Fontes
Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
Ministério da Saúde. Informações sobre estresse e saúde mental.
Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
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