
O coração acelera, bate mais forte ou parece sair do ritmo. A sensação pode aparecer durante uma situação de tensão, depois de uma preocupação intensa ou mesmo quando a pessoa finalmente para. Em uma crise de ansiedade ou de pânico, a palpitação pode ser ainda mais assustadora, porque o próprio sintoma pode provocar medo e aumentar a sensação de que alguma coisa grave está acontecendo.
O estresse pode, de fato, provocar alterações nos batimentos cardíacos. Quando o organismo se mobiliza diante de uma situação que exige atenção ou resposta, o coração pode acelerar. Se essa tensão se prolonga, é possível que a pessoa permaneça durante muito tempo em um estado de ativação, acompanhado de outros sinais como dificuldade para dormir, cansaço, tensão muscular e inquietação.
Nas crises de ansiedade e, especialmente, nas crises de pânico, essa resposta pode se intensificar. A pessoa pode sentir o coração disparar, falta de ar, tremores, tontura ou uma sensação intensa de perigo. O medo diante dessas sensações pode aumentar ainda mais a ativação corporal, criando uma experiência difícil de interromper naquele momento.
Por serem tão concretas, as palpitações assustam. E é justamente por isso que não devem ser automaticamente atribuídas à ansiedade ou ao estresse. Alterações cardíacas, problemas da tireoide, anemia, desidratação, febre, uso de determinados medicamentos, cafeína e outras condições também podem produzir esse sintoma. Quando as palpitações são novas, frequentes, intensas ou acompanhadas de outros sintomas, é importante investigar as possíveis causas físicas com um profissional de saúde.
A psicossomática pode contribuir justamente quando pensamos nessa relação sem separar completamente corpo e experiência psíquica. O organismo participa da maneira como vivemos as situações, e a tensão emocional pode se manifestar corporalmente. Isso não significa que cada sintoma tenha um significado oculto ou que seja possível identificar uma causa psicológica para toda manifestação física.
Pense em alguém que passa semanas trabalhando muito, resolvendo problemas, cuidando de outras pessoas e deixando o próprio descanso para depois. Talvez consiga continuar funcionando sem perceber o quanto está tensa. Até que, em algum momento, o coração acelera e aquilo que vinha sendo suportado quase silenciosamente se torna impossível de ignorar.
Às vezes, quando a pessoa não encontra tempo para cuidar de si, o corpo acaba impondo uma pausa.
Essa ideia não significa que o sintoma esteja “mandando uma mensagem” que precisamos decifrar. Significa que vale a pena escutá-lo. Escutar, nesse caso, começa por respeitar aquilo que está acontecendo, inclusive o medo que uma manifestação física pode provocar, e procurar compreender em que condições ela apareceu.
Na perspectiva psicanalítica, Freud mostrou que a ansiedade envolve uma experiência de perigo que mobiliza também o corpo. Isso ajuda a compreender por que uma situação pode ser vivida como ameaça e produzir uma reação física intensa, mesmo quando a pessoa sabe racionalmente que não existe um perigo imediato.
Depois que a palpitação passa, porém, pode permanecer o medo de que ela volte. Algumas pessoas começam a prestar atenção constante aos próprios batimentos, interpretando qualquer alteração como sinal de uma nova crise. Outras simplesmente retomam suas atividades e tentam esquecer o episódio.
Talvez seja interessante observar o que estava acontecendo antes da palpitação e o que acontece depois dela.
Ela apareceu em um momento de tensão? Durante uma crise de ansiedade? Depois de uma noite mal dormida? Em uma situação de preocupação? Ou surgiu sem nenhuma relação aparente com aquilo que estava acontecendo?
Essas informações ajudam tanto na investigação clínica quanto na compreensão da experiência.
O corpo não precisa ser tratado como inimigo, nem como um enigma que obrigatoriamente esconde alguma coisa. Sintomas físicos são assustadores justamente porque nos colocam diante de algo que não controlamos completamente. Por isso, merecem ser ouvidos e respeitados.
Investigar o corpo e olhar para aquilo que a pessoa está vivendo não são caminhos opostos. Podem fazer parte do mesmo cuidado.
Fontes
Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
Ministério da Saúde. Informações sobre saúde cardiovascular e ansiedade.
Freud, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
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