
Há situações que ainda não aconteceram, mas que já começam a ocupar nossos pensamentos. Uma conversa que teremos amanhã, uma viagem, uma decisão que precisamos tomar, uma consulta, uma mudança, uma resposta que estamos esperando. Às vezes, basta imaginar o que poderá acontecer para que a ansiedade apareça.
O futuro ainda não chegou, mas o corpo pode reagir como se algo já estivesse acontecendo. O coração acelera, surge uma inquietação, o sono pode ficar mais difícil e a cabeça começa a percorrer diferentes possibilidades.
A tentativa de imaginar antecipadamente o que pode acontecer muitas vezes vem acompanhada de uma pergunta silenciosa: e se der errado?
A partir daí, podemos passar bastante tempo imaginando situações que talvez nunca aconteçam. Pensamos no que diremos, no que o outro poderá responder, no que faremos se algo sair diferente do esperado. Quanto mais tentamos prever, mais possibilidades aparecem.
Existe uma diferença importante entre se preparar para uma situação e permanecer envolvido nela antes que aconteça. Podemos organizar uma viagem, estudar para uma prova ou pensar no que precisamos dizer em uma conversa difícil. Outra coisa é sentir que precisamos antecipar todos os acontecimentos possíveis para conseguir ficar tranquilos.
Quando isso acontece com frequência, talvez seja interessante olhar para além da situação que está por vir. O que exatamente torna aquele futuro tão ameaçador? O que está em jogo naquela situação? O que imaginamos que poderá acontecer conosco, ou com as pessoas que são importantes para nós?
Às vezes, a ansiedade diante do futuro está ligada a uma dificuldade de suportar aquilo que ainda não sabemos. Outras vezes, uma situação aparentemente simples toca em experiências anteriores, expectativas, medos ou conflitos que não são tão visíveis no momento.
Por isso, duas pessoas podem esperar pelo mesmo acontecimento e vivê-lo de maneiras completamente diferentes. O acontecimento é o mesmo, mas aquilo que ele representa para cada uma não é.
Também pode acontecer de a ansiedade aparecer mesmo quando sabemos, racionalmente, que não há motivo para imaginar o pior. Saber disso, porém, nem sempre é suficiente para que a inquietação desapareça. Existe uma diferença entre aquilo que conseguimos compreender e aquilo que nos afeta.
A psicanálise pode ajudar a escutar essa diferença. Em vez de procurar apenas uma maneira de fazer a ansiedade parar, podemos perguntar o que essa antecipação está dizendo sobre a maneira como aquela pessoa vive suas relações, suas escolhas, suas expectativas e aquilo que não consegue prever.
O futuro sempre comporta alguma incerteza. Talvez uma parte do sofrimento esteja justamente na tentativa de eliminar completamente essa incerteza antes que algo aconteça.
Quando perceber que está ansiosa por algo que ainda não aconteceu, pode ser interessante perguntar: o que, nessa situação que ainda está por vir, parece tão difícil de suportar?
Fonte
Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças.
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