Por que digo “sim” quando queria dizer “não” e depois fico ansiosa?

Por que digo “sim” quando queria dizer “não” e depois fico ansiosa?

Há situações em que sabemos, quase desde o primeiro momento, que gostaríamos de dizer não. Mesmo assim, respondemos sim.

Sim para um pedido que não queríamos aceitar. Sim para um compromisso quando precisávamos de tempo. Sim para uma tarefa que já sabemos que vai nos sobrecarregar.

Na hora, pode parecer mais fácil concordar. Depois, porém, vem a ansiedade. Podemos ficar irritadas, arrependidas, pensando naquilo que dissemos, imaginando como poderíamos ter respondido de outra maneira.

Às vezes, o problema parece estar na dificuldade de dizer não. Mas talvez seja interessante olhar um pouco mais para aquilo que está por trás desse sim.

O que acontece comigo quando imagino a possibilidade de contrariar alguém?

Talvez exista medo de magoar. Medo de parecer egoísta. Medo de perder o carinho ou a consideração do outro. Medo de provocar uma discussão. Ou simplesmente a sensação de que é mais fácil cuidar da vontade do outro do que sustentar a própria.

Desde muito cedo, aprendemos que nossas palavras têm efeitos sobre as pessoas. Descobrimos que algumas respostas são recebidas com aprovação e outras provocam desagrado. Também aprendemos a reconhecer aquilo que esperam de nós.

Algumas pessoas ocupam, ao longo da vida, o lugar de quem ajuda, compreende, resolve, acolhe ou está sempre disponível. Esse lugar pode se tornar tão familiar que dizer não produz uma sensação estranha, quase como se estivéssemos deixando de ser quem deveríamos ser.

É possível também que o sim seja uma maneira de preservar um vínculo. Se eu concordo, o outro fica satisfeito. Se o outro fica satisfeito, continuo tendo meu lugar junto dele.

Nesse caso, o que está em jogo não é apenas o pedido que recebemos. Pode estar em jogo aquilo que acreditamos que precisamos oferecer para sermos queridos, reconhecidos ou necessários.

E existe ainda uma questão mais difícil: o que acontece com o meu próprio desejo quando ele entra em conflito com o desejo do outro?

Dizer não pode significar reconhecer que existe uma vontade minha que não coincide com a vontade de outra pessoa. Isso parece simples, mas nem sempre é.

Françoise Dolto dedicou parte importante de seu trabalho à relação da criança com a palavra, com o desejo e com os outros. Sua perspectiva ajuda a pensar como, ao longo da constituição de uma pessoa, aquilo que ela sente e deseja vai encontrando palavras e também limites nas relações com os demais.

Na vida adulta, continuar dizendo sim quando se queria dizer não pode indicar que alguma coisa nessa relação entre desejo, palavra e vínculo merece ser escutada.

Não se trata de transformar todo não em uma demonstração de independência. Há momentos em que queremos realmente ajudar, ceder ou atender ao pedido de alguém. A questão aparece quando a resposta dada repetidamente contraria aquilo que gostaríamos de fazer e, ainda assim, parece impossível responder de outra maneira.

Talvez valha a pena perguntar:

O que eu temo que aconteça se eu disser não?

E também:

O que imagino que o outro verá em mim quando eu não fizer aquilo que ele espera?

Essas perguntas podem levar para muito além de um pedido específico. Podem nos aproximar da história de cada um, dos lugares que aprendeu a ocupar, das formas pelas quais buscou amor e reconhecimento e daquilo que, muitas vezes sem perceber, passou a considerar necessário para manter uma relação.

A ansiedade que aparece depois do sim pode ser justamente o sinal de que alguma coisa ficou sem espaço para ser dita.

Talvez seja esse o ponto que mereça ser escutado: não apenas por que foi tão difícil dizer não, mas o que precisou ser silenciado para que aquele sim pudesse ser dito.

Fonte

Dolto, Françoise. A imagem inconsciente do corpo.


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