
Há momentos em que os pensamentos parecem não dar descanso. Uma situação é revisada muitas vezes, uma conversa volta à cabeça, uma preocupação leva a outra e, quando percebemos, passamos horas pensando sobre coisas que já aconteceram ou sobre aquilo que ainda nem aconteceu.
Pensar faz parte da nossa maneira de compreender o mundo e tomar decisões. O problema pode surgir quando pensar deixa de ajudar a elaborar uma questão e passa a funcionar como uma repetição da mesma preocupação.
Isso acontece com frequência na ansiedade. A mente procura antecipar possibilidades, imaginar o que pode dar errado e encontrar maneiras de evitar situações desagradáveis. Surge então uma pergunta, depois outra, depois outra. E, mesmo quando nenhuma resposta parece suficiente, continuar pensando pode dar a sensação de que estamos fazendo alguma coisa para resolver o problema.
Às vezes, porém, não há uma solução que possa ser encontrada pelo pensamento. Uma conversa já aconteceu. Uma decisão ainda não pode ser tomada. Uma situação depende de outra pessoa. O futuro não pode ser completamente previsto.
Mesmo assim, a pessoa continua tentando encontrar uma resposta capaz de trazer segurança.
É comum que isso aconteça principalmente à noite, quando diminuem as atividades que durante o dia ocupam nossa atenção. O silêncio pode deixar mais evidente aquilo que vinha sendo adiado ou mantido em segundo plano.
Também podemos ficar presos a acontecimentos do passado. Repassamos uma conversa, pensamos no que poderíamos ter dito, imaginamos como a outra pessoa interpretou nossas palavras ou tentamos descobrir em que momento alguma coisa começou a dar errado.
Em outras situações, o pensamento se volta para o futuro. “E se acontecer alguma coisa?” “E se eu não conseguir?” “E se eu me arrepender?” A tentativa de imaginar todas as possibilidades pode parecer uma forma de se preparar, mas nenhum pensamento consegue eliminar completamente a incerteza.
Por isso, dizer para alguém “pare de pensar” geralmente não ajuda. Pensamentos não são simplesmente interruptores que podemos desligar por decisão.
Pode ser útil, em alguns momentos, afastar-se por algum tempo daquilo que está ocupando a mente. Caminhar, realizar uma atividade que exija atenção, conversar com alguém ou escrever o que está preocupando podem ajudar a organizar aquilo que parece confuso.
Quando essa repetição de pensamentos se torna frequente e produz sofrimento, também pode ser importante procurar ajuda.
Na psicoterapia, é possível falar sobre aquilo que retorna continuamente e tentar compreender por que determinada questão ocupa tanto espaço. Em vez de procurar apenas uma maneira de interromper o pensamento, podemos perguntar o que ele está tentando resolver.
Na psicanálise, essa pergunta ganha outra dimensão. Nem todo pensamento que se repete está procurando uma resposta consciente. Às vezes, aquilo que insiste aponta para uma questão que ainda não encontrou outra forma de ser elaborada.
Isso não significa que exista uma interpretação pronta para cada pensamento. O sentido de uma preocupação ou de uma repetição não é igual para todas as pessoas. É na escuta da história de cada um que esses sentidos podem começar a aparecer.
Pensar é uma parte importante da experiência humana. Poder parar de pensar por alguns momentos também é necessário. E, quando não conseguimos, talvez valha a pena perguntar não apenas como fazer os pensamentos cessarem, mas o que faz com que eles precisem continuar voltando.
Fonte
Organização Mundial da Saúde. World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All (2022).
Fonte complementar
Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças.
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