
Às vezes, a pessoa olha ao redor e não encontra uma razão evidente para estar ansiosa. O trabalho está bem, as relações parecem tranquilas, não existe nenhum problema urgente acontecendo. Ainda assim, aparece uma inquietação, uma preocupação ou uma sensação de que alguma coisa pode acontecer.
Isso pode ser desconcertante. Afinal, se está tudo bem, por que não consigo simplesmente ficar bem?
A ansiedade não depende sempre da existência de um perigo concreto no presente. Podemos ficar apreensivos diante de algo que ainda não aconteceu, antecipar problemas ou permanecer em estado de alerta mesmo quando a situação atual não apresenta uma ameaça evidente.
Em alguns momentos, basta uma possibilidade. Uma mudança que se aproxima, uma decisão que precisa ser tomada, uma situação que ainda não sabemos como irá terminar. A imaginação pode preencher aquilo que não sabemos com diferentes possibilidades, e algumas delas podem ser vividas como ameaçadoras.
Também pode acontecer de a pessoa ter vivido períodos prolongados de tensão e continuar sentindo os efeitos desse estado mesmo depois que a situação difícil terminou. O corpo e a mente não necessariamente retornam imediatamente à tranquilidade quando o problema deixa de existir.
Mas há situações em que a própria pessoa não consegue encontrar uma explicação para o que sente. Ela percebe a ansiedade, procura uma causa e não encontra nada que pareça suficiente para explicá-la.
Isso não significa que a sensação seja imaginária ou que esteja “inventando problemas”. O sofrimento é real, mesmo quando não conseguimos identificar imediatamente aquilo que o provoca.
A tentativa de encontrar uma causa pode, inclusive, aumentar a preocupação. “Por que estou assim?” “O que há de errado comigo?” “Será que alguma coisa vai acontecer?” A busca por uma explicação imediata pode acabar mantendo a pessoa ainda mais atenta aos próprios sinais de ansiedade.
Nesses momentos, talvez seja possível fazer uma pergunta diferente. Em vez de procurar apenas o que está acontecendo fora, podemos observar o que está acontecendo dentro.
Há quanto tempo essa sensação existe? Em que momentos ela aparece? O que estava acontecendo na minha vida quando começou? Existe alguma situação que costumo evitar? O que imagino que possa acontecer quando tudo parece estar bem?
Essas perguntas não servem para encontrar uma explicação pronta. Elas podem ajudar a perceber que a ansiedade tem uma história.
Na psicoterapia, essa história pode ser escutada. Na psicanálise, interessa também compreender por que determinadas situações despertam apreensão, quais conflitos podem estar envolvidos e o que a ansiedade pode estar expressando quando não conseguimos identificar um motivo consciente.
Isso não significa procurar uma causa escondida para cada sintoma. Nem toda ansiedade tem uma explicação única e imediata. E nem todo sofrimento precisa ser transformado em uma interpretação.
Às vezes, o primeiro passo é simplesmente reconhecer que existe uma diferença entre aquilo que está acontecendo ao redor e aquilo que está sendo vivido internamente.
Pode estar tudo bem do lado de fora e, ainda assim, alguma coisa estar difícil por dentro.
Quando essa sensação se torna frequente, intensa ou começa a interferir no cotidiano, procurar ajuda profissional pode ser uma maneira de compreender melhor o que está acontecendo.
A ansiedade não precisa ter uma causa evidente para merecer escuta. E compreender o que ela significa para cada pessoa pode ser mais importante do que encontrar uma explicação rápida para fazê-la desaparecer.
Fonte
Organização Mundial da Saúde. World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All (2022).
Fonte complementar
Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças.
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