Por que parece que tenho coisas demais para resolver?

Por que parece que tenho coisas demais para resolver?

Existem períodos em que realmente temos coisas demais para resolver. Uma mudança, problemas financeiros, questões familiares, trabalho, decisões importantes ou acontecimentos inesperados podem fazer com que a vida pareça uma sucessão de problemas esperando por uma resposta.

Mas existe uma experiência um pouco diferente: a sensação de que sempre há alguma coisa para resolver, mesmo quando não conseguimos apontar exatamente o que seria.

Uma tarefa termina e outra aparece. Um problema é solucionado, mas imediatamente surge outro. Quando finalmente existe algum tempo livre, em vez de alívio aparece a impressão de que estamos esquecendo alguma coisa.

Nesse caso, talvez a questão não seja apenas a quantidade de problemas, mas aquilo que acontece quando alguma coisa permanece sem solução.

Para algumas pessoas, deixar uma questão em aberto produz uma inquietação difícil de suportar. É preciso decidir, organizar, antecipar, esclarecer. A dúvida incomoda. A espera parece difícil. Enquanto alguma coisa não estiver resolvida, é como se não fosse possível realmente descansar.

A pessoa pode então viver ocupada não apenas com aquilo que precisa fazer, mas com aquilo que poderia acontecer se alguma coisa não fosse feita.

Amanhã alguém pode precisar de alguma coisa. Uma situação pode se complicar. Uma decisão pode trazer consequências inesperadas. Alguém pode se decepcionar. Um problema pode voltar.

Assim, manter-se ocupada pode parecer uma forma de cuidado, responsabilidade ou prevenção. Mas também pode ter outro efeito: não deixar muito espaço para aquilo que não chega como uma tarefa.

Uma mente permanentemente ocupada tem pouco tempo para se perguntar o que deseja.

Pode faltar espaço para uma ideia que ainda não sabe onde chegar, para uma lembrança que aparece sem ser chamada, para uma vontade que ainda não encontrou forma. Pode faltar até mesmo o tempo necessário para perceber que alguma coisa deixou de fazer sentido.

Quando existe sempre alguma coisa urgente para pensar, decidir ou resolver, o pensamento fica preso àquilo que precisa de uma resposta. O que não pede uma resposta imediata pode acabar sendo deixado de lado.

E desejo não costuma aparecer como uma tarefa.

Ele pode surgir de maneira imprecisa, contraditória, inesperada. Pode precisar de tempo. Pode não ter utilidade imediata. Às vezes, sequer sabemos ainda o que desejamos.

A psicanálise pode escutar justamente esse espaço.

Não apenas o que a pessoa faz para dar conta de tudo, mas o que pode estar ficando sem lugar enquanto ela faz.

Talvez seja por isso que a pergunta “o que eu preciso resolver agora?” nem sempre seja suficiente. Pode ser necessário perguntar também: “o que eu penso quando não preciso resolver nada?”

Winnicott ajuda a pensar essa experiência quando fala da adaptação ao ambiente e da possibilidade de existir de maneira mais espontânea. Uma pessoa que passou muito tempo precisando responder às necessidades e exigências ao redor pode tornar-se extremamente hábil em funcionar, mas ter dificuldade de simplesmente estar quando nenhuma resposta é necessária.

Parar, então, não significa apenas descansar o corpo. Pode significar abrir um espaço em que alguma coisa própria possa aparecer.

E esse espaço nem sempre é confortável.

Quando a pessoa não está ocupada com problemas, pode encontrar uma tristeza que vinha sendo adiada, uma insatisfação que não queria reconhecer, uma vontade que não sabia que tinha ou uma pergunta para a qual ainda não existe resposta.

Talvez manter-se ocupada seja, em alguns casos, uma maneira de não precisar encontrar imediatamente essas coisas.

Isso não significa que toda sobrecarga tenha uma origem psíquica. Há momentos em que as circunstâncias são realmente excessivas e exigem mudanças concretas. Também não significa que toda necessidade de organização seja uma defesa ou que toda preocupação tenha um significado oculto.

Mas, quando a sensação de urgência permanece mesmo depois que algumas circunstâncias mudam, pode haver algo mais a ser escutado.

Pode ser interessante observar o que acontece quando alguma coisa permanece pendente.

O que sinto quando não sei o que vai acontecer?

O que aparece quando não tenho nada urgente para resolver?

Consigo ficar algum tempo sem produzir, organizar ou antecipar?

Existe espaço para perceber o que desejo, ou quase tudo precisa se transformar em alguma coisa para fazer?

Talvez a questão não seja apenas aprender a fazer menos.

Pode ser descobrir o que aparece quando o fazer deixa, por alguns instantes, de ocupar todo o espaço.

Fontes

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde. Informações sobre estresse.
Ministério da Saúde. Informações sobre estresse e saúde.
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.


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