Por que tenho vontade de ficar sozinha?

Por que tenho vontade de ficar sozinha?

“Eu só quero ficar sozinha.”

A frase pode significar coisas muito diferentes. Às vezes, estar só é uma necessidade legítima de descanso, silêncio e recolhimento. Em outras situações, a vontade de se afastar aparece junto com a perda de interesse pelas pessoas, a falta de prazer nos encontros e uma dificuldade crescente de participar da própria vida.

Por isso, querer ficar sozinha não é, por si só, sinal de depressão.

Para muitas mulheres, porém, existe uma questão que merece ser considerada: quanto tempo do dia é realmente seu?

Entre trabalho, casa, filhos, companheiro, família, amigos e outras responsabilidades, muitas mulheres permanecem durante boa parte do tempo disponíveis para alguém. Não se trata apenas de executar tarefas. Existe também o trabalho menos visível de lembrar, organizar, antecipar, cuidar, responder, perceber o que está faltando e estar emocionalmente disponível.

Mesmo quando ninguém está pedindo alguma coisa diretamente, a sensação de que é preciso estar atenta pode permanecer.

Nesse contexto, querer ficar sozinha pode ser uma tentativa de interromper, por algum tempo, essa disponibilidade permanente. Não necessariamente para fugir das pessoas, mas para deixar de ser necessária a elas durante algumas horas.

Às vezes, o que a mulher deseja não é exatamente solidão. É não precisar responder a ninguém.

Ela quer entrar em casa e não ouvir uma pergunta. Quer comer sem ter que preparar alguma coisa para outra pessoa. Quer passar algumas horas sem cuidar, decidir, organizar ou explicar. Quer estar consigo mesma sem que isso precise servir a algum propósito.

Esse tipo de recolhimento pode ser uma experiência saudável. Depois de um período intenso, ficar em silêncio pode ajudar a recuperar-se e voltar a si mesma. A solidão escolhida pode ser, inclusive, uma forma de cuidado.

A questão muda quando o afastamento deixa de produzir descanso e começa a parecer a única maneira possível de lidar com o mundo.

Na depressão, a vontade de se afastar pode aparecer junto com perda de interesse e prazer, cansaço, dificuldade de concentração, alterações do sono e uma sensação de que estar com outras pessoas exige mais energia do que se tem disponível. Um convite que antes seria agradável pode passar a parecer uma obrigação.

A pessoa pode pensar: “Não quero ver ninguém”, quando talvez esteja querendo dizer: “Não tenho energia para estar com ninguém.”

Essa diferença é importante.

Também pode acontecer de o contato com os outros trazer desconforto. Conversar, responder mensagens, explicar como está se sentindo ou simplesmente sustentar uma presença diante de alguém pode parecer cansativo demais. Ficar sozinha oferece, então, uma espécie de alívio porque não é preciso explicar, corresponder ou fingir que está tudo bem.

Mas existe uma diferença entre estar só e sentir-se afastada.

Winnicott deu um lugar importante à capacidade de estar só. Para ele, poder ficar consigo mesmo não significa necessariamente isolamento ou abandono. A possibilidade de estar só pode se desenvolver justamente a partir de uma experiência suficientemente segura com outras pessoas. Não é preciso estar permanentemente acompanhado para sentir-se amparado.

Françoise Dolto ajuda a acrescentar outra dimensão a essa questão. Seu trabalho chama atenção para a importância de reconhecer a pessoa para além dos lugares que ocupa e das funções que desempenha nas relações. Isso permite pensar, especialmente no caso das mulheres, o que acontece quando ser mãe, companheira, filha, profissional ou aquela que cuida dos outros ocupa tanto espaço que fica pouco lugar para aquilo que não tem uma função imediata.

Não significa que esses papéis sejam um problema. O problema pode aparecer quando a pessoa já não consegue perceber onde termina aquilo que esperam dela e começa aquilo que deseja para si.

Nesse sentido, a vontade de ficar sozinha pode ter também um sentido muito particular: por algumas horas, ninguém precisa de mim e eu não preciso ser nada para ninguém.

Pode haver aí uma experiência de alívio, mas também uma pergunta. Quem sou eu quando não estou ocupando uma função para alguém?

Essa pergunta pode ser especialmente difícil para quem passou muitos anos sendo reconhecida justamente por sua capacidade de cuidar, resolver, sustentar e estar disponível.

Por isso, querer ficar sozinha não significa necessariamente rejeitar as pessoas. Às vezes, significa precisar recuperar uma presença própria.

Também é possível que o afastamento seja uma reação a uma vida em que quase não existe espaço para o próprio desejo. Quando se passa muito tempo cuidando das necessidades dos outros, pode ser difícil saber se o que se procura é companhia ou simplesmente um pouco de liberdade para não precisar cuidar de ninguém.

Talvez por isso algumas mulheres digam: “Eu amo minha família, mas quero ficar sozinha.”

Essa frase não contém necessariamente uma contradição.

É possível amar alguém e precisar de distância. É possível gostar de estar com outras pessoas e, ainda assim, precisar de períodos em que ninguém demande nada. É possível querer companhia e desejar silêncio.

A psicanálise pode perguntar o que acontece nesse intervalo.

O que a mulher encontra quando finalmente não precisa responder a ninguém? O silêncio traz descanso ou traz angústia? Ela consegue usufruir desse tempo ou imediatamente sente que deveria estar fazendo alguma coisa? Quando está sozinha, consegue perceber algum desejo próprio ou apenas sente alívio porque as demandas cessaram?

Essas perguntas podem revelar algo importante sobre a relação entre cuidado e desejo.

Às vezes, a mulher passou tanto tempo ocupando o lugar de quem cuida que o recolhimento se torna uma das poucas maneiras de recuperar um espaço subjetivo. Outras vezes, o isolamento já não é escolha. Ela se afasta até daqueles de quem gostaria de estar perto, sente saudade e, ainda assim, não consegue procurar ninguém.

É nesse tipo de contradição que a experiência merece ser escutada com mais atenção.

Não é preciso concluir rapidamente que a pessoa “não quer ninguém”. Talvez exista uma diferença entre não querer o encontro e não conseguir sustentá-lo naquele momento.

Também pode existir culpa. “Eu deveria sair mais”, “as pessoas vão achar que estou me afastando”, “não posso continuar assim”. A pessoa passa então a se cobrar justamente por não conseguir participar das relações como antes.

Quando o isolamento se prolonga, essa cobrança pode aumentar ainda mais a distância. Quanto mais difícil fica responder às pessoas, mais difícil pode parecer voltar a procurá-las.

Por isso, a pergunta talvez não seja simplesmente “por que quero ficar sozinha?”, mas o que encontro quando fico sozinha e de que estou tentando me afastar quando procuro o isolamento?

Às vezes, a resposta será simplesmente: “Eu preciso de um pouco de silêncio.”

Em outras, pode ser: “Não tenho energia para estar com ninguém.” Ou ainda: “Não quero que ninguém perceba como estou.” Cada uma dessas respostas aponta para uma experiência diferente.

Quando a vontade de ficar sozinha vem acompanhada de tristeza persistente, perda de prazer, cansaço, alterações importantes do sono ou outras mudanças na maneira de viver, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo. O isolamento, nesse contexto, pode ser uma das manifestações de um sofrimento maior.

A solidão também pode ser um lugar de encontro consigo mesma. Para muitas mulheres, pode ser ainda a tentativa de recuperar um espaço que durante muito tempo esteve ocupado pelas necessidades e expectativas dos outros.

Talvez a questão não seja simplesmente aprender a gostar de estar acompanhada ou obrigar-se a sair mais. Pode ser necessário descobrir que tipo de solidão está sendo procurada e de que lugar essa necessidade está surgindo.

Fontes

Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression).

Ministério da Saúde. Depressão em adultos: Linha de Cuidado.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.

Dolto, Françoise. A imagem inconsciente do corpo.


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