
O medo de ficar sozinha pode aparecer em diferentes momentos da vida. Às vezes surge depois de uma separação, de uma perda ou de uma mudança importante. Em outras situações, aparece mesmo quando não houve nenhum acontecimento recente que explique claramente esse sentimento.
Pode ser um medo muito concreto: quem estará comigo se alguma coisa acontecer? Quem vou procurar quando precisar? Como será minha vida sem aquela pessoa?
Mas também pode existir um medo mais difícil de nomear. A ideia de ficar sozinha pode trazer uma sensação de vazio, abandono, insegurança ou de que algo importante estará faltando.
Por isso, ficar sozinha e sentir-se sozinha não são necessariamente a mesma coisa. Podemos estar fisicamente acompanhados e experimentar uma profunda solidão. Também podemos passar algum tempo sem companhia e nos sentirmos bem.
O medo da solidão pode estar relacionado àquilo que a presença do outro representa para cada pessoa. Para algumas, estar com alguém significa sentir-se protegida. Para outras, significa ter com quem dividir as experiências, confirmar suas escolhas ou simplesmente não precisar enfrentar determinadas situações consigo mesma.
Quando o medo é muito intenso, pode acontecer de a pessoa permanecer em relações que já não fazem sentido, aceitar situações que lhe fazem mal ou procurar rapidamente uma nova companhia para não entrar em contato com a sensação de estar só.
Isso não significa que exista algo errado em desejar uma relação ou gostar da companhia de outras pessoas. Somos seres que precisamos de vínculos. A presença do outro tem importância na nossa vida.
A questão pode aparecer quando o medo de ficar sozinha se torna tão grande que passa a determinar escolhas que a própria pessoa talvez não fizesse se não estivesse tentando escapar da solidão.
Também é possível que esse medo tenha raízes antigas. Nossa maneira de experimentar presença e ausência começa a ser construída muito cedo. As experiências de cuidado, separação, abandono, segurança e confiança participam da maneira como aprendemos a estar com os outros e também de como conseguimos estar conosco.
Por isso, uma separação na vida adulta, por exemplo, pode despertar sentimentos que parecem maiores do que aquilo que está acontecendo naquele momento. O fim de uma relação pode representar não apenas a perda daquela pessoa, mas também o encontro com outras perdas, medos e inseguranças que já faziam parte da história.
Na psicanálise, a relação com o outro ocupa um lugar importante. Não porque devamos aprender a viver sem ninguém, mas porque podemos investigar o que buscamos na presença de alguém e o que se torna tão difícil quando essa presença desaparece.
Talvez a pergunta não seja apenas “por que tenho medo de ficar sozinha?”, mas também: o que significa, para mim, ficar sozinha?
O que imagino que vou perder? O que temo encontrar? O que espero que outra pessoa faça desaparecer? E como aprendi, ao longo da minha história, a lidar com a presença e a ausência de quem é importante para mim?
Essas perguntas não oferecem respostas prontas. Podem, porém, abrir espaço para compreender uma experiência que muitas vezes é vivida apenas como medo.
Ficar sozinha pode ser difícil. E compreender por que isso é tão difícil para cada pessoa pode ser uma parte importante desse percurso.
Fonte
Winnicott, Donald W. O ambiente e os processos de maturação.
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