Por que fico imaginando tudo o que pode dar errado?

Por que fico imaginando tudo o que pode dar errado?

Há pessoas que, diante de uma situação nova ou importante, começam imediatamente a imaginar o que pode dar errado.

Uma viagem, uma conversa, uma decisão, uma mudança. Antes mesmo que alguma coisa aconteça, a imaginação já percorreu vários caminhos possíveis. O que poderia acontecer? O que o outro poderia pensar? E se alguma coisa sair diferente do esperado?

À primeira vista, pode parecer apenas uma tentativa de se preparar. Pensar antecipadamente nos problemas pode dar a sensação de que estamos mais protegidos. Se eu imaginar o que pode acontecer, talvez consiga evitar. Se eu estiver preparada para o pior, talvez sofra menos caso ele aconteça.

Mas, na vida psíquica, nem sempre aquilo que fazemos para nos proteger consegue produzir segurança.

Às vezes, quanto mais tentamos antecipar, mais possibilidades aparecem. Uma hipótese leva a outra, e aquilo que começou como uma preocupação pontual passa a ocupar uma parte importante do nosso tempo.

Pode haver, então, algo além da preocupação com o acontecimento em si. O que torna tão necessário imaginar todas as possibilidades? O que se espera evitar quando se tenta prever aquilo que ainda não aconteceu?

A psicanálise nos lembra que nossa relação com o futuro não é construída apenas a partir das circunstâncias presentes. O que esperamos, tememos e imaginamos também está ligado à nossa história, às experiências que tivemos e à maneira como fomos aprendendo a lidar com aquilo que não podemos controlar.

Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma situação e imaginar coisas completamente diferentes. Uma consegue esperar. Outra precisa antecipar todos os possíveis problemas. Não porque uma seja mais racional do que a outra, mas porque aquela situação pode ter significados diferentes para cada uma.

Também pode acontecer de a pessoa perceber que está imaginando algo que provavelmente não acontecerá e, ainda assim, não conseguir interromper a preocupação. Existe uma diferença entre aquilo que conseguimos compreender conscientemente e aquilo que continua nos afetando.

Talvez a imaginação esteja tentando fazer alguma coisa por nós. Evitar uma surpresa. Manter uma sensação de controle. Impedir uma nova decepção. Preparar-se para uma perda. Garantir que nada saia do lugar.

Mas nenhuma antecipação consegue eliminar completamente o que ainda não sabemos.

E talvez seja justamente aí que apareça uma questão importante: o que é tão difícil de suportar naquilo que ainda não sabemos?

A resposta pode não estar no futuro que estamos imaginando, mas em alguma experiência que esse futuro desperta.

Às vezes, o medo de que algo dê errado encobre outros medos. O medo de perder alguém, de ser rejeitada, de fracassar, de decepcionar, de não conseguir lidar com o que vier depois.

Por isso, compreender a ansiedade não significa simplesmente aprender a pensar de outra maneira ou impedir que pensamentos negativos apareçam. Pode significar escutar o que está sendo colocado em jogo naquela antecipação.

A psicanálise pode oferecer esse espaço de escuta. Um espaço em que a pergunta não precisa ser apenas “como faço para parar de imaginar coisas ruins?”, mas também: “o que estou tentando evitar quando preciso imaginar tudo o que pode dar errado?”

Talvez, por trás de tantos futuros possíveis, exista algo do presente pedindo para ser compreendido.

Fonte

Freud, Sigmund. Inibição, sintoma e ansiedade (1926).


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