
Escolher uma mudança não significa necessariamente sentir apenas alívio ou entusiasmo diante dela. Podemos desejar muito uma mudança e, quando ela finalmente acontece, sentir medo, insegurança, tristeza ou ansiedade.
Uma pessoa decide terminar um relacionamento que já não fazia sentido. Outra muda de cidade em busca de uma vida diferente. Alguém deixa um trabalho, começa um projeto novo, muda de casa ou simplesmente decide viver de outra maneira.
A escolha foi própria. Ainda assim, alguma coisa pode apertar por dentro.
Isso pode parecer contraditório.
“Se fui eu que escolhi, por que estou tão ansiosa?”
Talvez porque toda mudança envolva mais do que aquilo que estamos escolhendo. Existe também alguma coisa que estamos deixando. Mesmo quando uma situação já não nos serve, ela pode oferecer familiaridade. Conhecemos aquele lugar, aquelas pessoas, aquela rotina, aquele modo de viver. Sabemos como funcionamos ali. Quando mudamos, perdemos algumas referências antes de encontrar outras.
Existe também uma dimensão afetiva nas escolhas. Uma mudança pode trazer a possibilidade de algo novo e, ao mesmo tempo, exigir uma separação de alguma coisa que fez parte da nossa história. Podemos sentir falta de uma vida que decidimos abandonar. Podemos sentir saudade de pessoas de quem precisamos nos afastar. Podemos até sentir falta de uma versão de nós mesmos que já não queremos continuar sendo.
Isso não torna a escolha errada.
A ambivalência faz parte de muitas decisões importantes. Podemos querer duas coisas que não cabem juntas. Podemos desejar avançar e, ao mesmo tempo, desejar permanecer. Podemos saber que determinada escolha é necessária e ainda assim sofrer com suas consequências.
Freud dedicou atenção à ambivalência, mostrando como sentimentos aparentemente opostos podem coexistir em relação às mesmas pessoas, situações e escolhas.
Talvez seja por isso que algumas mudanças produzam tanta ansiedade. Não estamos apenas diante do desconhecido. Estamos também diante daquilo que precisamos deixar para trás.
E existe uma pergunta ainda mais delicada: quem eu serei depois dessa mudança?
Uma mudança altera circunstâncias, relações, responsabilidades e, muitas vezes, o lugar que ocupamos diante dos outros. Enquanto estamos em um lugar conhecido, sabemos quem somos ali. É preciso encontrar outras maneiras de estar, de escolher, de se relacionar e até de reconhecer a própria identidade.
A ansiedade pode aparecer justamente nesse intervalo, quando aquilo que era conhecido já não está disponível e aquilo que virá ainda não tomou forma. Talvez seja difícil suportar esse espaço entre uma coisa e outra. Às vezes, queremos ter certeza de que a escolha dará certo antes mesmo de vivê-la. Queremos saber se seremos felizes, se conseguiremos nos adaptar, se não iremos nos arrepender.
A psicanálise pode ajudar a olhar para essa experiência sem transformar a ansiedade em um problema que precisa simplesmente desaparecer. Pode ajudar a perguntar o que essa mudança representa, o que está sendo deixado, o que está sendo desejado e quais conflitos aparecem quando essas duas coisas se encontram.
Uma escolha pode ser nossa e ainda assim provocar medo. Talvez possamos sentir saudade daquilo que deixamos e continuar querendo seguir. E talvez seja justamente nesse espaço de sentimentos diferentes que uma mudança começa, de fato, a ser elaborada.
Fonte
Freud, Sigmund. Luto e melancolia (1917).
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