
É possível estar deprimida e, ao mesmo tempo, sentir-se tomada pela ansiedade.
À primeira vista, pode parecer contraditório. A depressão costuma ser associada ao desânimo, à falta de energia, ao afastamento e à perda de interesse. A ansiedade, por sua vez, parece estar ligada ao excesso: pensamentos que não param, preocupação, inquietação, medo do que pode acontecer. Mas a experiência de uma pessoa não precisa caber em uma única descrição.
Alguém pode passar o dia inteiro sem vontade de sair da cama e, ainda assim, não conseguir dormir porque está pensando em tudo o que pode dar errado. Pode sentir-se sem energia para encontrar os outros e, ao mesmo tempo, ter medo de decepcioná-los. Pode não conseguir imaginar nada que deseje para o futuro e, ainda assim, passar horas preocupada com esse futuro.
Depressão e ansiedade são condições diferentes, mas podem coexistir. A ansiedade também pode aparecer entre os sintomas presentes em quadros depressivos. Mas talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se uma pode acontecer junto com a outra. É perguntar como ansiedade e depressão se encontram naquela pessoa.
Quando não há energia para viver, mas há energia demais para pensar
Uma das experiências mais angustiantes pode ser justamente essa contradição.
O corpo está cansado, mas a cabeça não para. A pessoa gostaria de descansar, mas começa a pensar em uma conversa que teve, em alguma coisa que precisa resolver, em uma decisão que ainda não tomou. Imagina problemas futuros, revisita acontecimentos passados e tenta encontrar alguma certeza que permita finalmente sossegar.
Enquanto isso, vai perdendo o interesse pelo presente.
Pode existir uma espécie de movimento em duas direções: uma parte da pessoa parece recolher-se, enquanto outra permanece em estado de alerta. É possível estar sem vontade de fazer quase nada e, ainda assim, sentir-se incapaz de parar de pensar. Essa combinação pode ser muito desgastante.
A ansiedade pode esconder o que está acontecendo por baixo dela
Às vezes, a pessoa chega dizendo que está ansiosa. Fala da preocupação, da insônia, da sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer, da dificuldade de desligar a cabeça. Só depois aparece outra coisa. Ela já não sente prazer nas coisas que antes gostava. Não tem vontade de encontrar os amigos. Não consegue imaginar um futuro que lhe interesse.
Está cansada de tudo.
Talvez esteja vivendo uma depressão, mas a ansiedade ocupou tanto espaço que foi o primeiro sofrimento a ser percebido. Também pode acontecer o contrário. Uma pessoa que já vinha se sentindo deprimida começa a se preocupar cada vez mais porque perdeu a confiança na própria capacidade de lidar com o que acontece. O futuro passa a parecer ameaçador. Uma decisão simples parece enorme.
Uma pequena dificuldade parece anunciar outras tantas. Nesse caso, a ansiedade pode estar relacionada à experiência de fragilidade que acompanha o estado depressivo. Não é necessário escolher uma explicação única.
O que a psicanálise pode escutar nessa combinação?
Na psicanálise, ansiedade e depressão não são apenas nomes para conjuntos de sintomas. São experiências que precisam ser escutadas na história daquela pessoa.
Freud pensou a ansiedade como uma experiência relacionada ao perigo. Mas aquilo que é vivido como perigo não é necessariamente o mesmo para todos.
Para uma pessoa, pode ser o medo de perder alguém. Para outra, o medo de fracassar. Para outra, a possibilidade de ficar sozinha. Para outra ainda, a sensação de que não conseguirá corresponder ao que esperam dela.
Quando a depressão aparece junto, podemos encontrar uma pergunta diferente: o que essa pessoa perdeu, deixou de esperar ou deixou de desejar?
Nem sempre existe uma perda evidente. Às vezes, a pessoa olha para a própria vida e diz:
“Eu tenho tudo para estar bem. Então por que estou assim?”
A pergunta pode ser mais difícil justamente porque não há um acontecimento único que explique o sofrimento. A psicanálise não precisa encontrar imediatamente uma causa. Pode acompanhar a pessoa na construção de uma compreensão sobre aquilo que está acontecendo.
Ansiedade e depressão podem se alimentar uma da outra?
Em alguns casos, a relação parece circular. A pessoa está deprimida e sente que não consegue dar conta das coisas. Por isso, preocupa-se mais. Quanto mais preocupada, menos descansa. Quanto menos descansa, mais exausta fica. Quanto mais exausta, menos consegue fazer. E quanto menos consegue fazer, mais se culpa. Esse movimento pode aumentar tanto a ansiedade quanto o desânimo.
Mas é preciso cuidado para não transformar essa descrição em uma fórmula. Cada pessoa vive essa relação de maneira própria. Uma pessoa pode ficar ansiosa diante da sensação de que perdeu o controle sobre a própria vida. Outra pode sentir-se deprimida porque há muito tempo vive tentando controlar tudo e já não encontra espaço para si.
Por isso, a mesma combinação de ansiedade e depressão pode ter sentidos bastante diferentes.
E quando a pessoa não consegue desejar?
Talvez exista uma diferença importante entre não conseguir parar de pensar e não conseguir desejar. A ansiedade pode ocupar a mente com possibilidades. A depressão pode esvaziar aquilo que dava direção a essas possibilidades. A pessoa pensa muito, mas não sabe mais o que quer. Planeja, mas nada parece valer a pena. Preocupa-se com o futuro, mas não consegue imaginar um futuro que deseje. É nesse ponto que a experiência pode se tornar especialmente dolorosa.
Não se trata apenas de estar preocupada ou triste. Existe uma dificuldade de encontrar alguma coisa que faça a pessoa se movimentar em direção ao mundo.
A pergunta então pode mudar:
Não apenas “por que estou tão ansiosa?”, mas “o que aconteceu com o meu desejo?”
Essa é uma pergunta que a psicoterapia pode acompanhar.
Não é preciso escolher entre “ansiedade” e “depressão”
Quando ansiedade e depressão aparecem juntas, pode existir a tentação de descobrir qual delas é a verdadeira. Mas a experiência psíquica não funciona necessariamente dessa maneira.
Pode haver ansiedade e depressão. Pode haver momentos em que uma predomina sobre a outra. Pode haver uma relação entre elas que só se torna compreensível quando a história da pessoa começa a aparecer.
Do ponto de vista clínico, a presença persistente de sintomas de ansiedade e depressão merece avaliação profissional. O diagnóstico é clínico e considera a duração, a intensidade, o conjunto dos sintomas e o impacto que produzem na vida da pessoa.
Do ponto de vista da psicanálise, existe ainda outra dimensão: o que esse sofrimento está dizendo sobre a maneira como aquela pessoa tem vivido, desejado, perdido, esperado e se relacionado com os outros?
Talvez seja justamente aí que ansiedade e depressão deixem de parecer apenas duas coisas que aconteceram ao mesmo tempo. Podem começar a fazer parte de uma história que ainda precisa ser contada.
Fontes
Organização Mundial da Saúde. Depressive disorder (depression), 2026.
Ministério da Saúde. Depressão.
Ministério da Saúde. Linha de Cuidado da Depressão no Adulto.
Freud, Sigmund. Inibição, sintoma e ansiedade (1926).
Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação.
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